Blog da Clara
  • Aula de latim

    Aprendi na aula de latim

    que o plural de coração é corda
    Língua morta só pra quem não beija
    Sabe a etimologia quem já ama
    Corações são: corda
    bamba. 



    Comente aqui! / Em 10/05/12, 21:53
  • Querendo não querer

    Da série "As minhas horas que são dele"


    O não querer é complexo, confuso, incompleto. Tem porquês, interrogações, prorrogações, teste de habilidade específica. O não querer pede provas, exige razão e conveniência, cansa a persistência, inquire o bem querer. 
    O não querer é enquadrado, enfaixado, busca o melhor ângulo, não vai encontrar. Mas não é culpa dele não querer querer se achar. 
    O querer é tonto de tão simples, estúpido e completo, pleno como um "sim".
    O não querer vai esmagar o querer, eu sei, com suas táticas de guerra, com seus conhecimentos de causa, com seu descaso explicado (justificado?)
    O querer vai se esquecer que quer, vai querer outras coisas, também não é culpa dele. Quando virar um não querer de cada lado, cabo de guerra de quem é mais complicado, "mas" e "porém" desatinados... Não vou querer querer pra ver. 



    Comente aqui! / Em 30/04/12, 15:37
  • Apagada

    Fui concebida em fogo alto

    Por e com sangue quente
    Mas como num sobressalto
    Vi-me como um sol poente
    De luz que se apaga
    De frio que propaga
    De mão que não afaga
    De dor que se consagra.

    Se hoje sou fogo de palha
    É porque minha chama falha
    Se tiro a roupa, mostro a alma
    Depois pedem-lhe calma
    Não calmo.
    Agora chega! Sem entrega
    É alma que se nega. 



    Comente aqui! / Em 24/04/12, 22:31
  • Mais voo

    Vou me estrepar.

    Eu vou.
    Mas vou...



    Comente aqui! / Em 22/04/12, 19:48
  • Dos meus amigos e defeitos

    Nunca concordei com essa história de “amigo meu não tem defeito”. Amigo meu tem defeito sim, e às vezes muitos. Mas é no reconhecimento dessas falhas que eu descubro o quanto os amo, e quando aceito esses deslizes reforço suas virtudes.

     Gostar de gente perfeita (se existisse...) é muito fácil. Amar mesmo é compreender os defeitos e até reconhecê-los com todo o carinho. Apontar quando é necessário, mas sem dedo ferino, com abraço de irmão.

     Amigo meu tem defeito, ainda bem! Como seria se eles tivessem que aceitar os meus, sem saber sequer do que se trata? Eles sabem bem, compartilhamos alguns, damos boas lágrimas e risadas.  Muitas das vezes o defeito do amigo até me fere, me magoa, causa uma briga, uma discussão. E quando eu decido que perdoar e aceito, vejo quase automaticamente sinais de mudança.

    Imagine só, pobre de mim! Perdida e tortuosa, entre amigos sem falhas, sem a compreensão de quem sabe bem do que se trata cometer erros. Maior alívio para mim é quando eu despejo minha culpa, e meu ombro amigo me diz tranquilo “Já aconteceu comigo...”. 

    Desconfio de quem nega o que tem de pior. Nossa humanidade está também nessas coisas que a gente se arrepende e nem acredita que fez. A nossa capacidade de ser imperfeito é um presente da vida, que a gente vive desprezando. Agora quero aceitar! Que venha o que dói, e a alegria que se segue.

    Meus poucos e bons amigos me mostram a grandiosidade de perdoar, que se sustenta na miséria de ser suscetível. Amigo meu tem defeito, que glória! E os vejo crescendo em cada erro, aprendo com suas vivências, me apoio nas experiências alegres ou infelizes.  Amigo meu erra, perde a compostura, faz um monte de besteira, e é do lado dessa gente perfeitamente humana que eu quero ficar.

    Não é apologia nem exaltação do erro, muito menos do errado. Mas preciso dizer: Quem nunca erra, quando acerta?



    Comente aqui! / Em 05/04/12, 15:13
  • Pra continuar a sorrir

    No dia que eu nasci, Chico Anysio anunciou no show a minha chegada ao mundo. “Mais uma mulher pros meus homens”, ele disse. 

    Sempre gostei de ver meu pai falando do Chico, contando as histórias das gravações, das conversas, da amizade. Do humor que ele tinha sem esforço, muito além do palco ou da tv, que era tudo, até engraçado.

    Meu pai gosta de contar no show, que um dia ele estava brigado com o filho de cinco anos e disse “Eu tenho 7 filhos, ele só tem um pai. Vamos ver quem sente falta”

    Hoje somos, segundo o IBGE, 190.732.694 de brasileiros já sentindo falta.

    Minha relação com o Chico, se é que posso chamar assim, traçou-se por caminhos indiretos, mas em uma trajetória de muito amor. Os ídolos do meu pai sempre acabaram se tornando meus também, porque o maior ídolo de toda filha é mesmo “o papai”, e era tão bom deitar na cama do meu pai e ver a escolinha a tarde toda, vendo meu pai com olhos brilhantes de admiração, dando aquelas gargalhadas longas.

    O Chico disse um dia ao meu pai, que pai e filha ainda iam morar juntos, prevendo a cumplicidade fraterna que me guiaria pela vida, quando eu tinha pouco mais de quatro anos.  E, engraçado, é essa profecia que acalma a mim e meu pai nos dias mais longos e distantes.  

    Minha mãe que carregou meu pai no carro até Parnaíba pra conhecer Chico Anysio, e depois do encontro meu pai ganhou emprego, ganhou experiência, ganhou vontade, ganhou um amigo.  E nunca se perdeu dos ganhos...  Sempre fui muito grata por isso!

    O que foi feito não se esquece, o que se cria não se esgota, o que se ama não se perde, do que se ri não se estristece.

    Posso dizer confiante ao meu pai, a mim, a todos os brasileiros saudosos : A gente não perde as pessoas, a gente só ganha. 




    Comente aqui! / Em 24/03/12, 13:04
  • De cara

    (Disforme como me olhar no espelho)


    Qualquer vestígio de futuro me apavora
    Qualquer sombra de passado me devora
    Do meu relógio já sem hora
    Da minha vida sem aurora
    Da minha rima pobre, ora!
    Do meu desfecho sou senhora.

    Sabe a mulher no corpo da menina
    Que a vida já traçou a sina
    Desde o dia vinte e três
    À gosto, sem desgosto
    O destino já se fez
    A dor é minha!
    E pronto, ponto. Outra linha.

    Às vezes bela
    Às vezes torta
    Sei que tudo me comporta
    Sei que nada me conforta
    Se o disforme é minha tara,
    Pouco importa!
    Quero a bala que dispara
    Quero a força que me para
    Quero o que me desampara.
    E se a palavra já é rara
    Se é pra fazer poesia
    Que ela tenha a minha cara.



    Comente aqui! / Em 09/03/12, 21:49
  • Pela língua

    Baseado em fatos reais e linguísticos...

    (aos críticos de plantão, a repetição da palavra "língua" é proposital)

    Foi pela língua que Luiza e Caio se conheceram. Afim de aprender a língua espanhola, as duas línguas se encontraram e descobriram que havia um encaixe diferente do normal.

    Aos poucos, as línguas curiosas, foram descobrindo muitas formas de dizer as coisas, de sentir os gostos, e perceberam-se falantes de tantas coisas antes impronunciáveis.

    Se um químico e uma cineasta falam a mesma língua, eu não sei. Mas observo, com olhos e ouvidos atentos, que à cada vez que as duas línguas se encontram, se expande o idioma.

    Se o amor ignora ou reinventa a linguagem, a verdade é que agora viraram poliglotas, e descrevem o dicionário que os próprios traçaram. Já se fala a língua do ciúme, da saudade, da vontade, do futuro... E à toda hora novas palavras com sinônimos e citações do querer vão somando, para que a tal língua nunca seja morta.

    A língua falou em namoro, aceitaram. A língua falou em Paris, foram. A língua quer  e diz ainda tantas coisas, que língua é músculo que não fadiga.

    O que acontece é que ninguém mais fala essa língua, que é coisa só do amor dos dois. E fica sempre algo incompreendido, pois não há quem diga que duas línguas queram tanta coisa! E vão seguindo, falantes e “querentes”, que a língua espanhola já virou pidgen dessa fala que só cresce.

    Agora, acreditem, a língua fala em casamento e dá nome aos futuros filhos, e já tem suas regras gramaticais e emocionais.  Não resta para o casal um futuro diferente, só mesmo seguir os movimentos do músculo mais ativo do corpo e da alma.

    Se a língua é mutável, que o amor seja mudado, mas nunca mudo.

     

     

    Sobre a foto: Homenagem prestada, identidade preservada. 



    Comente aqui! / Em 04/03/12, 10:17
  • Até segunda ordem

    Quando eu era criança morava numa rua chamada “Coronel Afonso romano”. Uma vilazinha simpática, onde passei os anos mais felizes da minha vida, brincando na rua, ralando os joelhos, vivendo de verdade.

    Minha vizinha de frente, Bibi, era a grande companheira de aventuras. Em sua companhia divertida, eu vendia miçangas na calçada, abria cancela para ganhar alguns trocados, tentava invadir uma clínica vizinha, dentre outras brincadeiras levadas.

    Meu pai sempre morou longe de mim, mas gostava de fazer surpresas e chegar sem avisar. Numa dessas surpresas, meu pai me encontrou em plena travessura, secando os pneus dos carros com a Bibi, e nos deu uma bronca daquelas.

    Eu, que não era uma criança dada a traquinagens, voltei pra casa carregada de culpa e disposta a não brincar na rua tão cedo.  Meus pais nunca precisaram me dar broncas severas, porque sempre fui bem comportada e boa filha, e já estava quase me desmanchando em lágrimas de remorso.

    Mal subi as escadas do meu sobrado e o telefone tocou, era meu pai. Já estava quase no avião de volta e contrariou as ordens me mandando secar mais pneus, tocar campanhias e viver como uma criança.

    A verdade é que eu não entendi nada, pelo menos não naquele momento, mas fui correndo contar a Bibi que tínhamos permissão para sermos o que éramos: Crianças.

    Uma sensação de liberdade que nunca se repetiu, mas que de certa forma me acompanha para sempre. Eu posso, ah, eu devo secar pneus!




    Comente aqui! / Em 29/02/12, 17:59
  • Aspirando e inspirando

    Sou acometida de inspirações em todo o meu processo de escrita, sou muito menos transpiração, e me deixo envolver pelos ares criativas que chegam por acaso. Qualquer coisa pode ser motivo para escrever, até mesmo uma coisa que só eu vi, e que qualquer um não enxergaria nada além do trivial.

    Meu priminho agora pouco perguntou “Por que você fica escrevendo toda hora?” Bom, isso nem mesmo eu sei responder, mas a culpa é toda da tal da inspiração que me acomete quando menos se espera.

    Todos os meus personagens correspondem a uma pessoa que eu conheci, não importa se é alguém da minha família ou um desconhecido que encontrei na rua, no metrô, na praia... Desde que me chame atenção, pouco posso fazer para impedir, e logo logo entra em minhas histórias.

    Normalmente, eu sou a que se utiliza da inspiração, mas vez ou outra, eu (euzinha, em minha pequeneza) sirvo também para inspirar belos escritos. E nesses momentos, meu ego se estufa com ares de musa, e nada pode me deixar mais contente e sorridente, mais plena e convencida (que todo mundo às vezes fica) do que belas palavras escritas para mim.

    Essa coisa que mais amo, e que muito me utilizo para ser feliz, ou para me acompanhar na tristeza, servindo para me homenagear, é mais felicidade do que posso conter ou disfarçar.

    Eu, que me esforço para “poetizar” os outros, já fui muito bem escrita em linhas tão belas e sinceras, como essas:

     

    Clara, que importa

    não ter girassóis

    presos à janela,

    Se lá fora os sons,

    as cores e os tons,

    nos deixam a sós?

    (A vida é repleta

    de caos e barulhos,

    mas nossos silêncios

    assombram a tudo.

    Calamos o mundo

    com risos vadios?)

     

    Na noite veremos

    a aurora dizer

    que a alma, se nua,

    - tão clara, tão pura -

    ensina a viver

    com gosto de fruta.

     

    (E o néctar, doce,

    é frágil, menina)

     

    Mas dele se extrai

    Tudo o que recai

    em teu sabor

    de cajuína.

     Só posso agradecer...




    Comente aqui! / Em 27/02/12, 15:43
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