Blog da Clara Twitter instagram Voltar Index Home
  • Sobre mudar o mundo

    "Ser jovem e não ser revolucionário é uma contradição genética", disse uma vez um barbudo.
    Como nisso sou coerente, claro que eu quero mudar o mundo. Já achei que seria líder de algum grande movimento, já pensei que seria presidente do Brasil. Hoje, mais madura e mais consciente do meu papel no mundo, quero uma missão talvez ainda maior e mais difícil, quero ser escritora e professora.
    Confesso, quando pego meu computador e começo a me desmanchar em palavras, já não tenho nenhuma revolução em mente, tenho apenas pequenas ondas de movimentação humana. Quando escolho e aceito, que também nisso tem imposição do dom, mexer com essas duas coisas delicadas: Palavra e gente, não penso mais naquela velha ideia infantil de ser presidente.
    É inevitável ver o sangue ferver, as lágrimas chegarem aos olhos, de ter no corpo e na alma todos os machucados que as pessoas nas ruas estão sofrendo. Essa causa é particular e coletiva, é universal e pessoal. Pego ônibus terríveis todos os dias para ir à faculdade pública, me formar em letras e ser professora. Como todos os brasileiros, encaro todos os dias a violência, a espera, o medo, a falta de qualidade, a exploração para um dia ser alguém que pretende mudar vidas.
    Não vou à manifestação hoje porque estarei trabalhando, lidando com as duas ferramentas de movimentação do mundo: O verbo e quem o diz. De coração apertado por todos os que estarão lutando pelos nossos direitos, só sossego com a certeza de que eu também estou nessa batalha. 
    Dessa vez, ao falar de literatura para outros jovens essa tarde, e quando escrevo essas palavras para vocês, tenho de novo a revolução em mente. Mas agora já sei, não vou mudar o mundo, espero mudar as pessoas.



    Comente aqui! / Em 17/06/13, 16:08
  • Questão pronominal

    A gramática diz:
    Uma coisa não SE difere da outra
    Ela apenas difere.
    "Uma questão pronominal", explicou a professora.
    Repliquei humilde, regendo meu próprio verbo
    Eu ME difiro, juro. 



    Comente aqui! / Em 14/06/13, 13:29
  • Carta à Laura

    Uma ousada homenagem à Petrarca.


    Daqui, de onde estou, seu rosto já parece embaçado, não sei dizer se a imagem que tenho é sua, não reconheço seus traços, desconheço seu desenho.
    Daqui, de onde vejo, não sei se te enxergo, e tudo que tenho é um mosaico, com peças perdidas, de um corpo que não é mais o seu.
    De início de tinha tátil, carregava seu cheiro, lembrava tanto sua pele, que era a mesma que a minha. Sabia seus caminhos, conhecia sem mapas. Agora estou perdido, te perdi.
    Achei que a levava nos meus braços, nos meus membros, na memória. Nunca imaginei que, fugindo da minha visão, você me fugia de vez. Mas nós não sabemos de nada, Laura!
    Eu pensei que sua forma era tudo que eu tinha, e agora nem te sei mais.
    Seu corpo aparece nos meus sonhos, sempre coberto pelos longos cabelos, e isso é tudo que tenho. Só sei suas cores, não lembro os formatos.
    Entende meu desespero?
    Eu te esqueci!
    Lembra que eu gostava dos seus olhos, que descrevia seu sorriso, lembra que eu me escondia nas suas pernas? Eu não. 
    Fui para longe, e não sei para onde você foi, pois já não reside em mim, e por isso nem eu mesmo estou comigo. 
    Não sei dizer se ainda te amo. Me acostumei a dizer que essa era a verdade eterna. Mas hoje para mim você é apenas um nome. Só significado, sem forma.
    Daqui, de onde falo, só vislumbro o que está à frente, tudo que ficou para trás foi carregado pelo vento. E como tem ventado em mim!
    Antes era tão fácil tê-la por perto. Bastava pensar na sua beleza, nos seus defeitos e logo estávamos juntos, como eu julgava, sem separação.
    Não sei como sua imagem foi se granulando. Não faz tanto tempo tudo era nítido, sua aquarela desmanchou com as minhas chuvas. O retrato que pintei, tão detalhado, virou borrão. Agora é sem jeito, não te recordo!
    Daqui, de onde sinto, ainda te amo. De um jeito estranho, talvez mais puro, talvez fingido. E te abandono, com todo o amor, não posso mais querê-la. 
    Não te tenho definida, a ida é definitiva. Agora, sua forma diluída, prefiro que se vá. 
    É chegada a nossa despedida, te esqueci. Guardo seu nome, Laura, e só.



    Comente aqui! / Em 04/06/13, 17:20
  • Acordei

    Para ler ouvindo "Amor de índio"

    Acordei, e a primeira coisa que vi foram seus olhos.

    Acordei, sonolenta, preguiçosa, mal humorada, e vi seus olhos.

    Não pareciam cansados como os meus, nem preguiçosos. Estavam ali, felizes e plenos, e olhavam de volta para mim.

    Não gosto de acordar. Depois que levanto, me acostumo até me afeiçoar com o dia, mas não gosto da maldita hora da separação com a minha cama , de abrir definitivamente minhas pálpebras para o mundo, de sair do cobertor pronto para mim.

    Mas o mais doloroso mesmo é me despedir do sonho, só dele que eu preciso.

    Minha matéria é de devaneio, a realidade é para mim agressiva e forçosa, só no sonho eu descanso, alcanço, existo.

    Acordar é brusco, abrupto, é susto, me tira do suspenso, não me sustento,

    Não levito, levanto e caio.

    Mas acordei, e vi seus olhos

     e de repente o sonho estava ali.



    Comente aqui! / Em 30/05/13, 15:43
  • A bicicleta de Pedro

    Aqui vai um continho de amor entre primos que se passa na cidade de Perypery (fictícia para a geografia, real na minha imaginação), esse pedaço também é um trecho do meu futuro livro, só para dar um gostinho (e porque eu não resisto! Rs!)


    De repente, Pedro apareceu na janela com uma bicicleta amarela tão velha que Clarice se perguntou se ainda era mesma de tantas férias passadas. O sorriso de menino no rosto do homem perguntou:
     
    - Vamos ganhar o mundo?
     
    Clarice fez que sim com a cabeça, embora dentro dela sussurrasse como súplica “Não, Pedro, vamos perdê-lo”.
     
    Não ligou para a hora, nem para o possível aspecto de sono. Saiu pela porta e deixou o sol agredir sua fotofobia, o sorriso era maior. Sem pensar nem perguntar, subiu na bicicleta para ganhar ou perder a estrada que Pedro guiaria. Abraçou-o com a desculpa de manter-se segura, e constatou que Pedro ainda tinha o mesmo perfume que acompanhara sua saudade todos esses anos.
     
    Aos poucos o caminho foi ficando conhecido e uma nostalgia gostosa foi tomando Clarice do dedo do pé ao fio de cabelo arrepiado pelo vento. Quando a bicicleta parou, o destino já não era surpresa e Clarice sabia muito bem onde estava. Não conseguiu conter o sorriso quando avistou a mesma cachoeira, a mesma árvore, a mesma sombra para namorar. Esqueceu-se até de duvidar se ainda eram os mesmos, naquele instante nada seria diferente.
     
     - Pedro, como você lembra disso?
                                                                                                         
    - A moça da cidade aqui é você, Clarice, eu continuo o mesmo matuto que você deixou.


    Sorriram em confidência, e Clarice não teve nada para dizer, mas aquele “deixou” ficou ecoando. Ah, se Pedro soubesse o quanto ela o levou ao longo dos anos!
     
    - Gostou da surpresa?
     
    Pedro perguntou com os olhos aflitos pela felicidade de Clarice, e teve a resposta que mais gostava: aquele sorriso largo que só ela sabia dar.
     
    Diante da paisagem saudosa que tinha alimentado aqueles anos, os primos esqueceram-se da hora, da idade, e mergulharam na nostalgia da cachoeira, como as duas crianças que aprenderam a amar exatamente naquele lugar.
     
    Quando Clarice saiu da água, Pedro enxergou naquele rosto tudo que sempre amou, mas também no canto dos olhos tudo que jamais conheceria, que Clarice conseguia ser o próximo-distante de um país sempre a descobrir.
     
    Chegou bem perto da prima, tocando aos poucos seu rosto que parecia sem defeitos, e disse com os olhos vibrantes de encanto:
     
    - Eu gosto tanto de ti...
     
    Clarice não sentiu o movimento que fez, mas foi ela, em sua timidez desatinada, que jogou-se nos braços de Pedro e começou o beijo que não se pôde contar a duração. O beijo durou, sem repetição e sempre novo, o dia inteiro, a noite, a madrugada até o dia seguinte. E os outros que vieram, nos outros dias e semanas, também foram primeiros, também desatinados, também beijos, que não paravam, nem mesmo nas pausas, de acontecer e perdurar.
     
    A bicicleta de Pedro, a mesma velha e amarela, levou e deixou Clarice em tantos lugares, que mal cabiam no estreito mapa de Perypery. As emoções eram tantas, e as viagens profundas, que às vezes Clarice demorava dias para retornar do passeio. Desde que havia chegado, e chegado então, para Pedro e aquele amor, que estava sempre de passagem por uma e outra sensação.

     



    Comente aqui! / Em 28/05/13, 20:03
  • Crianças

    Sou apaixonada por crianças. Muitas vezes elas são mais sabidas que nós, adultos, que nos consideramos tão maduros e vividos.

    A vida precisa desse olhar cru, puro no mais essencial sentido da palavra, longe da sujeira da nossa maldade, de nossas influências, de todo o conhecimento prévio de mundo que a gente carrega, e que por ele a gente se deixa enganar.

    O que eu mais gosto nas crianças, além daquelas bochechas, é esse olhar inédito diante das coisas que por nós passam batidas, nossas vistas já cansadas, tão filtradas, nebulosas, não conseguem mais ver o verdadeiro sentido.

    Acho que todo mundo tem uma história de uma boa resposta que deu quando era criança ou que ouviu um sobrinho, irmão ou filho e se pergunta : “Como ele pensou nisso?”

     

    Tenho uma irmãzinha de cinco anos, que vive me surpreendendo com a naturalidade diante de assuntos polêmicos para os adultos, e a intensidade das banalidades. Ela me ensina todos os dias a redescobrir o mundo, e tomar cuidado com os meus filtros de adulta.

    Uma das minhas preferidas da Nina é sobre a escolha do namorado:

     "Eu queria namorar o Gabriel, o Antônio e o Pedro... Ah, mas eu só posso dois, né? Só tenho dois braços".

    Dou para vocês uma pequena provinha disso que estou dizendo. Um dicionário colombiano feito todo com as definições das crianças, editado pela primeira vez em 1999 o livro “Casa das estrelas” voltou a ser editado agora, ainda bem.

     

    Adulto: Pessoa que em toda coisa que fala, fala primeiro dela mesma (Andrés Felipe Bedoya, 8 anos)


    Ancião: É um homem que fica sentado o dia todo (Maryluz Arbeláez, 9 anos)


    Água: Transparência que se pode tomar (Tatiana Ramírez, 7 anos)


    Branco: O branco é uma cor que não pinta (Jonathan Ramírez, 11 anos)


    Céu: De onde sai o dia (Duván Arnulfo Arango, 8 anos)


    Colômbia: É uma partida de futebol (Diego Giraldo, 8 anos)


    Dinheiro: Coisa de interesse para os outros com a qual se faz amigos e, sem ela, se faz inimigos (Ana María Noreña, 12 anos)


    Deus: É o amor com cabelo grande e poderes (Ana Milena Hurtado, 5 anos)


    Escuridão: É como o frescor da noite (Ana Cristina Henao, 8 anos)


    Guerra: Gente que se mata por um pedaço de terra ou de paz (Juan Carlos Mejía, 11 anos)


    Inveja: Atirar pedras nos amigos (Alejandro Tobón, 7 anos)


    Igreja: Onde a pessoa vai perdoar Deus (Natalia Bueno, 7 anos)


    Lua: É o que nos dá a noite (Leidy Johanna García, 8 anos)


    Mãe: Mãe entende e depois vai dormir (Juan Alzate, 6 anos)


    Paz: Quando a pessoa se perdoa (Juan Camilo Hurtado, 8 anos)


    Sexo: É uma pessoa que se beija em cima da outra (Luisa Pates, 8 anos)


    Solidão: Tristeza que dá na pessoa às vezes (Iván Darío López, 10 anos)



    Comente aqui! / Em 21/05/13, 19:00
  • Feira grátis da gratidão

    Já pensou se existisse uma feira onde a gente levasse o que quer doar para alguém, e as outras pessoas também fizessem o mesmo. E assim, cada um levava o que quisesse ou nada e pegava também o que quisesse ou nada. Que tal?

    Sei que parece bom demais para ser verdade, mas existe, é a feira grátis da gratidão. E funciona assim:  Cada um leva o que quiser doar ou nada, e pega o que quiser ou nada também. E nas doações não estão incluídas só objetos, mas você pode levar também algo que saiba fazer e queira compartilhar. Pode dar uma aula de graça, fazer unhas de graça, doar sua música, seus desenhos, seus créditos de celular, enfim, o que você tem de melhor para dar.

    Fiquei sabendo desse evento tão bonito através de uma amiga belíssima (em todos os sentidos) que é uma das organizadoras da feira. Ela já me tem doado muitas coisas desde que nos conhecemos, e entre as mais valiosas, estão nossas conversas sobre suas vivências. E em uma dessas conversas, eu fui apresentada à feira.

    Quando ela me contou, inicialmente eu desconfiei da civilidade do ser humano diante a uma feira inteiramente de graça. Pensei que na prática poderia funcionar mais como um arrastão. Mas não, a intenção de quem vai à feira e mais ainda de quem a organiza é doar, acima de tudo. E normalmente sobram os produtos que estão em doação.  Não podia ser mais bonito, né?

    Fiquei sabendo também que a feira vem se espalhando, e várias cidades já realizam a bonita iniciativa, e sempre têm funcionado. O importante é exercitar o desapego, e ninguém pega nada sem que realmente tenha interesse, afinal, isso nada tem a ver com a proposta.

    Não tem preço, e valor infinito. Não precisa dinheiro, nem interesse, basta ficar grato.

    A definição da página do evento no facebook é essa: Uma vivência sobre confiança, entrega, gratidão e amor. Dar por dar,por se sentir abundante, sem esperar nada em troca. Quando se quer e agradece o que se tem, então se tem o que se quer e se é feliz.

    https://www.facebook.com/FeiraGratisDaGratidao

    Acho que não preciso dizer mais nada. Que a feira sirva para o coração de vocês, como serviu para mim, um alívio, um alento, uma certeza de que ainda dá tempo de construir aquela velha mudança que a gente sonha em ver no mundo.

      



    Comente aqui! / Em 15/05/13, 17:50
  • Se não fosse tudo

    Quando eu tentava não gostar de você, eu pensava que se não fossem seus olhos eu estava livre, e logo depois eu lembrava das pintinhas que temperam seu corpo, e me dava conta de que estava perdida de qualquer jeito. Gostava de justificar minha emergente paixão nos seus encantos. “Não é minha culpa, a  culpa é desses olhos!” Assim, sentia-me perdoada para ser tola, correr riscos e me assumir, de fato, apaixonada.  Afinal, não era fraqueza minha, mas foça das retinas verdes.

    Nos momentos mais fervorosos, nas emoções mais preocupadas, eu achava mesmo uma maldade fazer aquilo. Derramar aqueles olhos em frente aos meus, passear pelo meu corpo quase sem piscar, reflorestar minha alma do verde da sua. Era covardia! Que chance é que eu teria de não me entregar?

    “Mas se não fossem os olhos, estava tudo bem”, Gostava de tentar me enganar, e lembrava logo depois de que havia mil estrelas pintadas ao redor das suas costas, e que também, não era culpa minha se seu abraço fosse o céu.

    Descansei esses pensamentos por meses, mantive sossegada a contemplação. Mas, recentemente, já tranquilizada dessas possibilidades tão concretizadas, voltei a pensar sobre esse assunto. Todas as vezes eu ia retirando um item, e pensando “Se não fosse isso...”, logo outros tantos recaíam sobre mim, e seriam tão determinantes quanto. A verdade é que não havia saída, ainda bem.

    Mesmo que você não tivesse seus olhos ou as pintinhas, eu ainda ia me apaixonar por você. Pensando bem, de cabeça fria e coração quente, talvez eu só goste tanto deles assim porque são seus.




    Comente aqui! / Em 14/05/13, 21:32
  • Mães

    Tem gente que enche a boca para dizer que não vê a mãe como mulher. Reforça a imagem imaculada, quase divina daquela que o gerou. Eu não! Desde muito cedo vi minha mãe como mulher, de alma e sangue quente, e posso dizer com toda convicção que esse olhar inspira o que hoje chamo timidamente de "a mulher que sou".
    Mãe é parâmetro, o maior deles. Naqueles momentos em que você olha o céu e pensa "minha mãe ia me mandar levar guarda-chuva" ou "bem que minha mãe avisou". Ela se faz presente até quando você tenta contrariá-la "Minha mãe não ia gostar nada disso". 
    Sei que não estou gorda se minha mãe não me avisou, sei que tudo corre bem se minha mãe ainda não me alertou sobre nada, ao menor movimento suspeito para o bem ou mal, ela me diz. Minha mãe me faz saber o que eu não soube ver.
    Mãe é aquela que só você pode reconhecer os defeitos, e até mesmo quando os admite, faz compensações. "Ela foi rigorosa, mas tal dia ela fez aquilo..."
    Mãe é espera muito além dos 9 meses. Está sempre esperando que os filhos entendam o que ela quis dizer, que cresçam, que avisem como estão, que cheguem em casa. Minha condição de filha me mantêm em constante déficit com uma mãe que está muito além do que enxergo, com seus equívocos e exageros, claro, também faz parte da maternidade. 
    O elo fraterno se inicia até mesmo antes da gravidez, e se concretiza todos os dias. Maternidade é tornar-se mãe todos os dias, sempre concebendo novos desejos, votos, esperando por fases, um parto de cada vez até o fim da vida. Ainda bem!



    Comente aqui! / Em 12/05/13, 22:34
  • Gatos

    As pessoas que não gostam de gatos, costumam ter como motivo a opinião de que os gatos são “traiçoeiros”, “interesseiros”, “infiéis” e coisas assim, em oposição ao cachorro que carrega a imagem do bichinho fiel, carinhoso, pronto para fazer festa a qualquer passo do dono. Nunca achei que funcionasse bem assim.

    Sempre gostei muito de gatos. É o único animal que eu realmente gosto, eu acho. Quer dizer, adoro todos os animais em seus respectivos ambientes e de onde eu possa apenas admirar, e não conviver. Os únicos animais que estou disposta a ter do meu lado são meus macacos de pelúcia, as corujas das estampas, e um gato.

    Acho que os gatos são mal interpretados. São bichos altamente independentes, é verdade, não dá nem para comparar com a felicidade constante do cachorro em abanar de rabinhos, linguinha para fora, em saltos de euforia em direção ao dono ou qualquer outra pessoa. O gato não. É desconfiado, cabreiro, até arisco, precisa ser conquistado. Em seu andar altamente sedutor, sempre na ponta das patinhas, passa sem precisar da nossa existência.

    A sobriedade do gato é normalmente encarada como indiferença, ou até, “desafeição”. Mas eu sempre enxerguei nos olhinhos enigmáticos desses pequenos felinos uma identificação irmã, de uma natureza bem parecida com a humana, ou no mínimo, com a minha.

    Gosto da ideia de ter ao meu lado alguém que não precisa de mim para existir ou estar contente. Acho gostosa a ideia de ter um ser que, só está perto de mim, porque quer e quando quer. E que, quando sai, em fuga, ou em passeio, volta porque sabe e porque tem o retorno como vontade.

    É tão confortante um dia chegar mais cansada, ou triste, apática, e de repente sentir nas pernas um rabinho peludo e malemolente acompanhado de suaves miadinhos, e aqueles belos olhos, que além de tudo, podem mudar tanto quanto os nossos.

    Se alguém está conosco porque é desesperadamente dependente, eu não sei dizer até que ponto é entrega ou egoísmo, se é amor ou falta de opção, lealdade ou necessidade. Essa dúvida me assusta.

    Também me assusta saber que a qualquer momento posso ser deixada, me apavora a efemeridade das relações, da vida, dos elos, da possibilidade emergente do abandono. Mas me consola e me aquece o coração ver que, mesmo sabendo como sair, prefere-se a chegada.

    Me encanta nos gatos tudo que eles tem de mais natural. Seus olhos, suas patinhas como se andassem sempre de leve, seus ares de mini leões, seus bigodinhos, os carinhos, o miado e todo o etc felino, mas principalmente sua natureza livre. Talvez essa seja a verdadeira fidelidade: Poder ir embora, e preferir ficar.

    (Escolhi fotos de meninas com gatos, porque muito em breve eu serei uma dessas meninas com um gato.)



    Comente aqui! / Em 09/05/13, 21:54
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