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  • Crianças

    Sou apaixonada por crianças. Muitas vezes elas são mais sabidas que nós, adultos, que nos consideramos tão maduros e vividos.

    A vida precisa desse olhar cru, puro no mais essencial sentido da palavra, longe da sujeira da nossa maldade, de nossas influências, de todo o conhecimento prévio de mundo que a gente carrega, e que por ele a gente se deixa enganar.

    O que eu mais gosto nas crianças, além daquelas bochechas, é esse olhar inédito diante das coisas que por nós passam batidas, nossas vistas já cansadas, tão filtradas, nebulosas, não conseguem mais ver o verdadeiro sentido.

    Acho que todo mundo tem uma história de uma boa resposta que deu quando era criança ou que ouviu um sobrinho, irmão ou filho e se pergunta : “Como ele pensou nisso?”

     

    Tenho uma irmãzinha de cinco anos, que vive me surpreendendo com a naturalidade diante de assuntos polêmicos para os adultos, e a intensidade das banalidades. Ela me ensina todos os dias a redescobrir o mundo, e tomar cuidado com os meus filtros de adulta.

    Uma das minhas preferidas da Nina é sobre a escolha do namorado:

     "Eu queria namorar o Gabriel, o Antônio e o Pedro... Ah, mas eu só posso dois, né? Só tenho dois braços".

    Dou para vocês uma pequena provinha disso que estou dizendo. Um dicionário colombiano feito todo com as definições das crianças, editado pela primeira vez em 1999 o livro “Casa das estrelas” voltou a ser editado agora, ainda bem.

     

    Adulto: Pessoa que em toda coisa que fala, fala primeiro dela mesma (Andrés Felipe Bedoya, 8 anos)


    Ancião: É um homem que fica sentado o dia todo (Maryluz Arbeláez, 9 anos)


    Água: Transparência que se pode tomar (Tatiana Ramírez, 7 anos)


    Branco: O branco é uma cor que não pinta (Jonathan Ramírez, 11 anos)


    Céu: De onde sai o dia (Duván Arnulfo Arango, 8 anos)


    Colômbia: É uma partida de futebol (Diego Giraldo, 8 anos)


    Dinheiro: Coisa de interesse para os outros com a qual se faz amigos e, sem ela, se faz inimigos (Ana María Noreña, 12 anos)


    Deus: É o amor com cabelo grande e poderes (Ana Milena Hurtado, 5 anos)


    Escuridão: É como o frescor da noite (Ana Cristina Henao, 8 anos)


    Guerra: Gente que se mata por um pedaço de terra ou de paz (Juan Carlos Mejía, 11 anos)


    Inveja: Atirar pedras nos amigos (Alejandro Tobón, 7 anos)


    Igreja: Onde a pessoa vai perdoar Deus (Natalia Bueno, 7 anos)


    Lua: É o que nos dá a noite (Leidy Johanna García, 8 anos)


    Mãe: Mãe entende e depois vai dormir (Juan Alzate, 6 anos)


    Paz: Quando a pessoa se perdoa (Juan Camilo Hurtado, 8 anos)


    Sexo: É uma pessoa que se beija em cima da outra (Luisa Pates, 8 anos)


    Solidão: Tristeza que dá na pessoa às vezes (Iván Darío López, 10 anos)



    Comente aqui! / Em 21/05/13, 19:00
  • Feira grátis da gratidão

    Já pensou se existisse uma feira onde a gente levasse o que quer doar para alguém, e as outras pessoas também fizessem o mesmo. E assim, cada um levava o que quisesse ou nada e pegava também o que quisesse ou nada. Que tal?

    Sei que parece bom demais para ser verdade, mas existe, é a feira grátis da gratidão. E funciona assim:  Cada um leva o que quiser doar ou nada, e pega o que quiser ou nada também. E nas doações não estão incluídas só objetos, mas você pode levar também algo que saiba fazer e queira compartilhar. Pode dar uma aula de graça, fazer unhas de graça, doar sua música, seus desenhos, seus créditos de celular, enfim, o que você tem de melhor para dar.

    Fiquei sabendo desse evento tão bonito através de uma amiga belíssima (em todos os sentidos) que é uma das organizadoras da feira. Ela já me tem doado muitas coisas desde que nos conhecemos, e entre as mais valiosas, estão nossas conversas sobre suas vivências. E em uma dessas conversas, eu fui apresentada à feira.

    Quando ela me contou, inicialmente eu desconfiei da civilidade do ser humano diante a uma feira inteiramente de graça. Pensei que na prática poderia funcionar mais como um arrastão. Mas não, a intenção de quem vai à feira e mais ainda de quem a organiza é doar, acima de tudo. E normalmente sobram os produtos que estão em doação.  Não podia ser mais bonito, né?

    Fiquei sabendo também que a feira vem se espalhando, e várias cidades já realizam a bonita iniciativa, e sempre têm funcionado. O importante é exercitar o desapego, e ninguém pega nada sem que realmente tenha interesse, afinal, isso nada tem a ver com a proposta.

    Não tem preço, e valor infinito. Não precisa dinheiro, nem interesse, basta ficar grato.

    A definição da página do evento no facebook é essa: Uma vivência sobre confiança, entrega, gratidão e amor. Dar por dar,por se sentir abundante, sem esperar nada em troca. Quando se quer e agradece o que se tem, então se tem o que se quer e se é feliz.

    https://www.facebook.com/FeiraGratisDaGratidao

    Acho que não preciso dizer mais nada. Que a feira sirva para o coração de vocês, como serviu para mim, um alívio, um alento, uma certeza de que ainda dá tempo de construir aquela velha mudança que a gente sonha em ver no mundo.

      



    Comente aqui! / Em 15/05/13, 17:50
  • Se não fosse tudo

    Quando eu tentava não gostar de você, eu pensava que se não fossem seus olhos eu estava livre, e logo depois eu lembrava das pintinhas que temperam seu corpo, e me dava conta de que estava perdida de qualquer jeito. Gostava de justificar minha emergente paixão nos seus encantos. “Não é minha culpa, a  culpa é desses olhos!” Assim, sentia-me perdoada para ser tola, correr riscos e me assumir, de fato, apaixonada.  Afinal, não era fraqueza minha, mas foça das retinas verdes.

    Nos momentos mais fervorosos, nas emoções mais preocupadas, eu achava mesmo uma maldade fazer aquilo. Derramar aqueles olhos em frente aos meus, passear pelo meu corpo quase sem piscar, reflorestar minha alma do verde da sua. Era covardia! Que chance é que eu teria de não me entregar?

    “Mas se não fossem os olhos, estava tudo bem”, Gostava de tentar me enganar, e lembrava logo depois de que havia mil estrelas pintadas ao redor das suas costas, e que também, não era culpa minha se seu abraço fosse o céu.

    Descansei esses pensamentos por meses, mantive sossegada a contemplação. Mas, recentemente, já tranquilizada dessas possibilidades tão concretizadas, voltei a pensar sobre esse assunto. Todas as vezes eu ia retirando um item, e pensando “Se não fosse isso...”, logo outros tantos recaíam sobre mim, e seriam tão determinantes quanto. A verdade é que não havia saída, ainda bem.

    Mesmo que você não tivesse seus olhos ou as pintinhas, eu ainda ia me apaixonar por você. Pensando bem, de cabeça fria e coração quente, talvez eu só goste tanto deles assim porque são seus.




    Comente aqui! / Em 14/05/13, 21:32
  • Mães

    Tem gente que enche a boca para dizer que não vê a mãe como mulher. Reforça a imagem imaculada, quase divina daquela que o gerou. Eu não! Desde muito cedo vi minha mãe como mulher, de alma e sangue quente, e posso dizer com toda convicção que esse olhar inspira o que hoje chamo timidamente de "a mulher que sou".
    Mãe é parâmetro, o maior deles. Naqueles momentos em que você olha o céu e pensa "minha mãe ia me mandar levar guarda-chuva" ou "bem que minha mãe avisou". Ela se faz presente até quando você tenta contrariá-la "Minha mãe não ia gostar nada disso". 
    Sei que não estou gorda se minha mãe não me avisou, sei que tudo corre bem se minha mãe ainda não me alertou sobre nada, ao menor movimento suspeito para o bem ou mal, ela me diz. Minha mãe me faz saber o que eu não soube ver.
    Mãe é aquela que só você pode reconhecer os defeitos, e até mesmo quando os admite, faz compensações. "Ela foi rigorosa, mas tal dia ela fez aquilo..."
    Mãe é espera muito além dos 9 meses. Está sempre esperando que os filhos entendam o que ela quis dizer, que cresçam, que avisem como estão, que cheguem em casa. Minha condição de filha me mantêm em constante déficit com uma mãe que está muito além do que enxergo, com seus equívocos e exageros, claro, também faz parte da maternidade. 
    O elo fraterno se inicia até mesmo antes da gravidez, e se concretiza todos os dias. Maternidade é tornar-se mãe todos os dias, sempre concebendo novos desejos, votos, esperando por fases, um parto de cada vez até o fim da vida. Ainda bem!



    Comente aqui! / Em 12/05/13, 22:34
  • Gatos

    As pessoas que não gostam de gatos, costumam ter como motivo a opinião de que os gatos são “traiçoeiros”, “interesseiros”, “infiéis” e coisas assim, em oposição ao cachorro que carrega a imagem do bichinho fiel, carinhoso, pronto para fazer festa a qualquer passo do dono. Nunca achei que funcionasse bem assim.

    Sempre gostei muito de gatos. É o único animal que eu realmente gosto, eu acho. Quer dizer, adoro todos os animais em seus respectivos ambientes e de onde eu possa apenas admirar, e não conviver. Os únicos animais que estou disposta a ter do meu lado são meus macacos de pelúcia, as corujas das estampas, e um gato.

    Acho que os gatos são mal interpretados. São bichos altamente independentes, é verdade, não dá nem para comparar com a felicidade constante do cachorro em abanar de rabinhos, linguinha para fora, em saltos de euforia em direção ao dono ou qualquer outra pessoa. O gato não. É desconfiado, cabreiro, até arisco, precisa ser conquistado. Em seu andar altamente sedutor, sempre na ponta das patinhas, passa sem precisar da nossa existência.

    A sobriedade do gato é normalmente encarada como indiferença, ou até, “desafeição”. Mas eu sempre enxerguei nos olhinhos enigmáticos desses pequenos felinos uma identificação irmã, de uma natureza bem parecida com a humana, ou no mínimo, com a minha.

    Gosto da ideia de ter ao meu lado alguém que não precisa de mim para existir ou estar contente. Acho gostosa a ideia de ter um ser que, só está perto de mim, porque quer e quando quer. E que, quando sai, em fuga, ou em passeio, volta porque sabe e porque tem o retorno como vontade.

    É tão confortante um dia chegar mais cansada, ou triste, apática, e de repente sentir nas pernas um rabinho peludo e malemolente acompanhado de suaves miadinhos, e aqueles belos olhos, que além de tudo, podem mudar tanto quanto os nossos.

    Se alguém está conosco porque é desesperadamente dependente, eu não sei dizer até que ponto é entrega ou egoísmo, se é amor ou falta de opção, lealdade ou necessidade. Essa dúvida me assusta.

    Também me assusta saber que a qualquer momento posso ser deixada, me apavora a efemeridade das relações, da vida, dos elos, da possibilidade emergente do abandono. Mas me consola e me aquece o coração ver que, mesmo sabendo como sair, prefere-se a chegada.

    Me encanta nos gatos tudo que eles tem de mais natural. Seus olhos, suas patinhas como se andassem sempre de leve, seus ares de mini leões, seus bigodinhos, os carinhos, o miado e todo o etc felino, mas principalmente sua natureza livre. Talvez essa seja a verdadeira fidelidade: Poder ir embora, e preferir ficar.

    (Escolhi fotos de meninas com gatos, porque muito em breve eu serei uma dessas meninas com um gato.)



    Comente aqui! / Em 09/05/13, 21:54
  • Para alguém

    Me mudei recentemente, e ainda tenho muito o que arrumar. Comecei superficialmente por uma gaveta, e encontrei um caderno antigo, que tinha apelidado de "Inventário de segredos" (depois descobri que é um nome de um livro. Por sinal, lindo!), resolvi ver que surpresas eu tinha me deixado há anos atrás.
    Dei logo de cara com uma página escrita com capricho(Sei reconhecer minha letra de preguiça, ou de impulso criativo desesperado e aquela que eu fiz pensando muito bem no desenho de cada letrinha). Não tinha data, e confesso que não soube reconhecer se estava falando com minha voz, ou dando voz a uma personagem. À essa altura do meu encontro e de meu esquecimento, acho que isso já não tem a menor importância, se é que um dia teve.
    Compartilho com vocês agora o que achei ou que me achou.

    O título era "Para você", e agora eu me sinto à vontade para mudá-lo para "Para alguém".

    Da mesma forma que foram para você meus sorrisos e lágrimas ralas, entrego agora também o que restou.
    Você se pergunta e me pergunta: "O que é que tem para mim?" 
    Depois de oferecer minha doçura, minha luxúria, meu corpo e minha alma, o que há de bom e ruim, enfim, tudo de mim, confesso, hoje há pouco para você.
    Pouco restou de tudo que você pediu e não amou, "um desperdício?" Um exercício, talvez. É verdade que às vezes as coisas são irreversíveis, mas não te deixarei com fome, só não garanto a satisfação de seus olhos (bem maiores que o coração).
    Há para você a minha carência, a ligação melosa ou provocativa da madrugada. O encantamento desproposital? A atenção gratuita?  paixão espontânea? Foi tudo junto com a sua displicência, e hoje, enfim, não há mais a ingenuidade poética do meu olhar para você.
    Mas sirva-se ainda da minha indiferença sentimental e de alguns orgasmos casuais, enquanto aproveito sua dissimulação, que vai saber porque, continua me atraindo tanto.




    Comente aqui! / Em 09/05/13, 19:25
  • Como lidar com rachaduras

    Se você tem rachaduras, e depois de tanto tentar cobrir, tantas receitas caseiras, produtos que prometiam resultado imediato e perfeito, nada funcionou, talvez eu possa te mostrar a solução.

    Se, mesmo depois de tentar remendar, pintar, maquiar, suas rachaduras ainda são evidentes. Eis o que pode resolver a sua angústia: Assuma-as!

    É simples, embora um pouco demorado. Mas não precisa se preocupar, aqui vai a receita passo a passo para te ajudar com esse inconveniente.

    Comece assim : Procure o lado mais machucado, aquele canto mais despedaçado, o que por todo o tempo você escondeu. Acaricie, evidencie!

    Perceba aos poucos como é raro que a queda tenha acontecido no momento, na hora, e no lugar que ocorreu. Vou contar um segredo, mas não precisa mesmo contar a ninguém. Afinal, quando você souber, será óbvio para todos. As suas rachaduras são muito valiosas, você é o único que as tem, e só por isso elas são importantíssimas. Além disso, já prestou bem atenção? No cenário do seu eu, todas as linhas e desandos desses rastros formam caminhos tão mais belos e desenhados do que seria uma irreal e sem graça superfície lisa.

    No liso tudo escorrega. É mais fácil de limpar, eu sei. Passando um paninho, parece que não teve acidente. Mas o mosaico do quebrado vai guardando mais segredos, e contando mais história, e nesse instante o seu agora é instantâneo e guarda anos.

    Feito isso que eu lhe disse, respire fundo e tente um sorriso. Se não conseguir imediatamente, não se apavore, no dia seguinte arrisque de novo, e vá assim tentando e confiando nessa minha sugestão.

    Por fim, vire especialista!  Comece a reparar e a valorizar suas quedas e rachaduras, e também prestar atenção e tratar com carinho de colecionador apaixonado as dos outros. Especialmente as que parecem mais profundas e difíceis de lidar, olhe com atenção e aplique esses três passos novamente.

    Eu sei que parece maluquice, mas você vai ver. Você nunca mais vai ter problemas com as suas rachaduras de novo. E se você não gostar do resultado, é garantido, não entregamos suas quedas de volta.



    Comente aqui! / Em 16/04/13, 20:52
  • As linhas

    Observo atenta e paciente as humildes e marcadas linhas do meu território corpóreo. Pensando em palavras não ditas, lembrando verbos táteis, conjugo devagar a lembrança em longos passeios pela pele.

    Compartilho com você o que por tato já é seu. As fronteiras do meu corpo se imensam ao tocar as suas, sou terra em expansão,mais longa do que alcanço. Quando a linearidade é traço irregular, retorcido, emaranhado de retas do seu corpo contra o meu, eu no seu, e tudo em nós, deixo de ser linha paralela, vou de encontro, sou infinita.




    Obs: Fotos de Daniela Boechat




    Comente aqui! / Em 02/04/13, 21:42
  • Cartas para Clara

    É noite de amor no blog da Clara!

    Como talvez vocês saibam, há algum tempo eu comecei uma nova brincadeira aqui no blog da Clara que chamei de “Cartas para Clara”.

    O que acontece é que eu leio histórias de amor. Isso mesmo, as histórias de amor que vocês viveram e quiserem compartilhar comigo.

    Como romântica incurável, corajosa e sempre precisando de inspiração, o negócio é extremamente lucrativo para mim. Quando a vocês, se bastar, minha atenção é total ao ler e responder entusiasmada aos relatos. Os que deixarem terão suas cartas e suas respectivas respostas publicadas aqui, nesse nosso querido blog.

    Começamos a primeira leva agorinha. Recebi muitos e-mails, mas a maioria preferiu que seus relatos ficassem no segredo do nosso e-mail, e claro, a vontade dos remetentes será respeitadíssima.

    Vamos conhecer os que deixaram a gente matar a curiosidade...

     

    Luana Miranda mandou sua linda história de forma extremamente poética. Sorte a nossa!

     



    No ar

    O ano findava. A cidade vestia-se de luzes para  receber o que ainda se encontrava  no “ventre das expectativas”.  Nada pior que  a  obrigação de ser feliz...  Sentada na areia, esperava o abraço das ondas. Alheia a tudo, nada planejava. Os versos da canção boiando na mente: “O amor não é mais do que o ato/ de a gente ficar/no ar antes de mergulhar”...

    A praia fervia, cintilava, como se à vida bastasse a claridade da hora. Só não se ouviam as vozes do mar. Foi quando, desprevenida, fitou  aqueles olhos cheios de candura e promessas.

    Ele, inquieto, surpreso, sorriu.

    Ela o  contemplou, fascinada, séria.

    As retinas flamejaram. Não acreditavam naquilo e tudo se desenrolava como um filme em câmara lenta... o dia em que se conheceram : cores e carnaval, as tardes de batucada, os beijos sabendo a café,  a troca de vinis, as músicas dedicadas, os desencontros, os bilhetes pela casa... vestígios do que, um dia, fora eterno.

    Pediam-se com uma urgência que não tinham. Repeliam-se com um encabulamento que não lhes pertencia...

    Amavam-se, sabiam. Amavam-se na segura distância de um olhar.

     

    Luana,

    Sua história não precisou de muitas palavras para ecoar durante muito tempo em mim, e acredito que mais ainda em você.

    A distância de um olhar pode ser enorme, mas talvez é a única que assegura a eternidade.

    Os amores de carnaval tem essa estranha propriedade: Voltam todo ano.




    E Erick nos conta sua história que chamou “Amigos virtuais”. Felizmente, ele me garantiu que a tal amizade hoje é um amor e totalmente real.

     

    Ela estava numa foto qualquer de uma festa qualquer, mas quando ele a viu, algo lhe chamou muita atenção.

    Era um sábado qualquer do mês de junho do ano de 2009. Ele combinou com os amigos de sair a noite para uma festa, ir beber, dançar, ver mulheres... Ela estava lá. A festa era promovida pela faculdade em que a bela jovem de cabelos loiros estudava. Estava com uma blusa rosa e uma calça jeans.

    Quase que no fim da festa eles se encontraram. Uma amiga em comum os apresentou, trocaram alguns olhares, nada demais. Dançaram forró. Trocaram algumas palavras até que ela disse que estava com uma dor no pé e que iria se sentar... Ele disse que tudo bem. Quando ia embora, ela veio se despedir dele que, por sua vez, perguntou se poderia conhecê-la melhor. Ela disse que não.

    Acho que ele não se abalou muito, foi atrás dela mesmo assim nessas coisas de Orkut e MSN... Começaram a conversar virtualmente. Falaram sobre música, filmes e outras coisas quaisquer. Eles estavam se aproximando, mesmo que virtualmente, mas estavam. Continuaram a conversar quase que diariamente, passavam a madrugada falando tudo que é assunto... Ele começou a ficar envolvido e encantado demasiadamente por ela. Continuaram a conversar e em cada uma dessas conversas de assuntos banais ficava disfarçado o desejo dele de ter aquela menina loira, linda e de conversa muito agradável.

    Um mês e alguns dias depois de terem começado a conversar, ele não aguentou: disse tudo que queria dizer, falou que estava encantado por ela e que não sabia como aquilo tinha acontecido. Ela por sua vez não deu nenhuma resposta, apenas disse que teria que esperar e ver se alguma coisa iria acontecer. Ele já esperava essa resposta e prometeu a si mesmo que iria conquistá-la. O jeito era esperar e ele esperou... Esperou de verdade e a cada conversa virtual havia uma constante: ele sempre perguntava quando que eles iriam se encontrar novamente e ela sempre dizia que não sabia. Ele insistiu... Insistiu de verdade. Até que um dia ela falou a ele que aquela relação era apenas amizade. Ele sofreu... Sofreu de verdade.

    Mesmo com todo esse sofrimento eles continuaram a conversar... Antes de qualquer coisa eles eram bons e verdadeiros amigos virtuais. Ele queria acreditar e se convencer disso: apenas amigos; até tentou, mas não conseguiu muito tempo e algumas semanas depois ele estava novamente se declarando, confessando a própria recaída e ouvindo mais uma vez: “somos apenas amigos”.

    Ele prometeu a si mesmo que iria esquecê-la e seguir em frente. Passaram algum tempo distantes, mas sempre que dava conversavam virtualmente... Eram bons amigos virtuais... Até que um dia numa dessas conversas normais, eles voltaram a ficar bem próximos e foram deixando se envolver, se envolver, se envolver e num domingo qualquer de abril de 2010 eles se encontraram... Não sei se foi Deus, destino, acaso, mas eles se encontraram, 10 meses depois os olhos de ambos voltaram a se cruzar e naquele momento não existiu ele, nem existiu ela, existiu eles, um delicioso plural...

    Eram, felizmente eram, bons amigos virtuais!

    Erick,

    Fiquei contente ao ler já pelo título que se tratava de um romance virtual, ou pelo menos, inicialmente virtual, porque apesar de idealizarmos paixões em campos de girassóis, a nossa geração paquera, namora, se encanta e até se apaixona pela internet. 

    E isso não precisa ser depreciativo, como algumas pessoas colocam. De certa forma, essa nossa mania de redes sociais reinventou a maneira de se relacionar, demonstrar os sentimentos, conhecer as pessoas, e eu acho até, valorizou o toque, o contato, o olho no olho.

    Não sei se a história realmente aconteceu com você, mas fico feliz que tenha tido final feliz real, fictício ou virtual!

    Beijos

     


    E terminamos (esse post) com a história mandada pelo Felipe, que eu gostei de chamar de “A Clara ida”.

     

    Bem, a nossa história começou quando eu a encontrei no shopping. Eu comprava bombons de chocolate e estava sozinho em pleno dia dos namorados de 2010. Ela tinha um cabelo grande e castanho quase loiro trançado, uma blusa alaranjada e usava um short jeans com uma meia-calça por baixo. Fiquei completamente desnorteado pela sua beleza e fiquei olhando enquanto ela caminhava, e então me apaixonei pela preguiça dos seus passos.

    Eu a conheci. Sentei ao seu lado e comecei a conversar com ela. Ela estava ajeitando a meia-calça que estava rasgada bem na coxa direita. E que coxa. Seu nome era Clara (coincidência, apenas rs) e ela usava óculos, reparei nas pedrinhas que os enfeitavam. Em sua outra mão, estava um sorvete de morango que ela acabara de tirar da boca e ficou uma pontinha em seu lábio. A vontade avassaladora de beijá-la estava me possuindo.

    Conversamos sobre filmes, namoros, músicas. Beatles, Berlin, Drummond, Laranjas Mecânicas, Alcohol e outras coisas. Ela era linda e suas bochechas deixavam umas marcas enquanto ria. Fiquei com mais vontade de desvendar todo o mistério que ela escondia por trás dos óculos e da franja. Ela falava sobre Legião Urbana e só estava com quinze anos... Como eu. E depois de tantas noites e de tantos beijos em baixo de árvores, eu me apaixonei. 

    Madrugadas de ligações, de chuvas, de amor nos faziam nos desejar para sempre. Dava pra sentir uma excitação em falar, o aumentar do tom de voz, os olhos brilhando, a necessidade compulsiva de sentir o cheiro da sua nuca. As mensagens que me acordavam pela manhã, escrito um "sonhei contigo" ou um "eu te amo", deixavam-me triste só de imaginar que um dia eu poderia perdê-la.

    Eu a pedi em namoro quatro meses depois, dia 11 de outubro de 2010. Fui até o colégio onde ela estudava, com um buquê de flores, chocolates e declarações. Suas amigas estavam aos prantos, eu achava engraçado isso tudo. Ela se confundia entre rir e chorar enquanto tentava dizer alguma coisa.

    Nossa rotina era: Se encontrar sempre que pudéssemos. Três meses depois, nosso namoro ainda estava a mesma perfeição. Resolvi comprar um CD da sua banda preferida, Uma Outra Estação. Voltei pra minha casa e comecei a ouvi-lo enquanto escrevia uma poesia à ela. E enquanto olhava a foto, ela me deixou. Sem me dizer o motivo, ela me deixou. Só resolveu me abandonar. E assim fiquei: Eis-me ainda mais só.

    Felipe,

    Obrigada por ter mandado a sua história.

    A despedida ou a falta dela sempre há de nos pasmar.

    Os motivos de uma ida são muitos, e ao mesmo tempo, nunca há nenhum.

    Será difícil dizer porque somos deixados ou porque deixamos. Tiro por mim, que sou feita de recuos e avanços e por muitas vezes esses dois foram feitos a base de idas abruptas, e consequentemente, despedidas e abandonos.

    O lado bom da história é que tudo que vai embora deixa muito espaço livre. Seja o que vier, vazio é terra fértil, aproveite como puder. A ausência que propicia a abundância!

     

     


    Por hoje é só. Deixo-os com um belo poema de Paulo Leminski.

    quando eu vi você
    tive uma idéia brilhante
    foi como se eu olhasse
    de dentro de um diamante
    e meu olho ganhasse
    mil faces num só instante

    basta um instante
    e você tem amor bastante

    um bom poema
    leva anos
    cinco jogando bola,
    mais cinco estudando sânscrito,
    seis carregando pedra,
    nove namorando a vizinha,
    sete levando porrada,
    quatro andando sozinho,
    três mudando de cidade,
    dez trocando de assunto,
    uma eternidade, eu e você,
    caminhando junto



    Comente aqui! / Em 16/03/13, 00:17
  • Daqui ali

    O poema que parece não se encaixar. 


    O que sou já não se suporta

    O que tenho não mais me aguenta

    Estou insuportável para meus princípios

    Ando caindo de meus precipícios

    Ando mais torta do que a própria corda

    Que um dia já me sustentou.

     

    Sou mais estranha do que posso

    Sou mais feliz do que acredito

    Serei mais louca do que tenho sido

    E me desdigo, assim como confirmo.

     

    Sou tanta coisa, e assim,

    Coisa nenhuma.

    Tenho mais verbo do que boca

    Tenho mais boca que razão

    E mais razão do que problema.

    Mal tenho corpo, e peso um coração

    Que vai daqui até o início do poema.

     

     

     

     

     



    Comente aqui! / Em 05/03/13, 19:46
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