Blog da Clara Twitter instagram Voltar Index Home
  • Disse a cigana

    Quando eu era adolescente, uns 14, 15 anos, alguém cochichou para mim, que o rapaz no canto da mesa do restaurante sabia ler as mãos das pessoas. Curiosa como sempre fui, pedi que ele lesse a minha. E estiquei os pulsos em sua direção.

    O diagnóstico de minha vida foi claro e preciso : Não viveria nem muito, nem pouco tempo, vida tranquila, de muito trabalho e algum reconhecimento. Nem o sucesso estrondoso, e nem o anonimato, tudo pacato. Foi preciso em dizer, que a causa de minha morte seria a própria vida. Que eu não morreria por nenhuma agonia aguda, nem por nenhuma causa. E que eu teria um, só um grande amor.

    Na época, fiquei desnorteada, achei tudo um grande absurdo, que triste era minha vida então!

    Eu queria viver pouco e intensamente, eu queria morrer por uma causa, que fosse uma bandeira, ou uma dor de cabeça, qualquer coisa que não fosse a má sorte de morrer apenas por estar viva.

    Eu queria alguma coisa mais doída, algo que me tirasse desse mormaço, que fosse uma vida célebre, ou mesmo amargurada. Nada dessa coisa ajustada, dessa coisa tranquila.

    E sem falar no amor! Eu queria ser Vinícius sempre apaixonada, de muitas paixões, eterna namorada da constante possibilidade de amar.

    Um amor só. Me soou um assalto da vida, como é que ela pode me tirar as pessoas, as possibilidades, as palpitações?! Ah, não.

    Achei melhor dar margem à criatividade, e acreditar na tal margem de erro que tem toda magia. No mais, além do que, eu posso modificar o meu caminho, foi o que pensei. Eu posso sim, a vida minha! E da minha mão sei eu, que eu mesma vou conduzir as minhas linhas. E ficou acertado assim.

    Deixei de lado essa história, esqueci. Até que ontem, num sobressalto, a mesma situação. Uma amiga disse, em tom de confissão, que a moça do nosso lado sabia ler mão. Pensei “É a hora de tirar a prova”, saber se eu venci essa batalha, saber se aquele cara me enganava, saber se eu tinha a chance de traçar um novo rumo.

    Ela hesitou no trabalho, disse que já tinha prometido a si mesma não ver o destino alheio, e não pela chance do erro, porque garantiu ela, sua cigana é das boas. Gosta de vinho tinto, e sabe ler as pessoas,  e que o crédito pelos acertos é só da cigana, e não dela.

    Insisti, ela aceitou, disse que ia dar só uma olhadinha. E eu aceitei, porque minha vida não é mesmo grande coisa, e uma olhadinha já serviria para sanar a minha curiosidade.

    Depois de algumas voltas, parei no mesmo caminho. Será que a gente não tem mesmo esse direito de mudar o destino? Ela era certeira, disse das coisas escondidas, essas que estão guardadas dentro da gente. Dá para ver nos olhos, se for mais atento, e no sorriso, se for o caso de alegria. E nas mãos, como viu a cigana.

    Era verdade, minha vida tinha bons caminhos para a minha profissão. De ficção, alertou ela, e não sei se compreendi. Mas eu terei sempre uma jornada dupla, que as contas continuarão a chegar, e a literatura não há de dar conta delas. Tudo bem, tudo bem. Já é generosidade da vida me ceder os bons caminhos, e as outras atividades, também são minha verdade. Isso não é problema!

    Também era fato, que meu fardo é morrer por viver, assim, sem nada de grave. Melhor, pensei comigo mesma. A vida se retira, e isso parece justo.

    E no mais, o mais bonito de minha vida. Entre tantas pessoas, um amor. Um só amor importante, que vai me acompanhar por muito tempo até onde deve. E resta para mim esse mistério, e respeitar o impropério de me apaixonar perdidamente uma vez só.

    Coisa tão linda! Saber que a vida me reserva uma só chance de entrega, e tanta coisa dentro dela.

    Dei um sorriso e pedi a saideira, a minha vida afinal, não era assim tão mesquinha.

    E não fui quem eu mudei as minhas linhas, mas elas que trataram de me alinhar.

    Ainda não entendi se estou sem escolha, ou se escolhi estar no meu lugar.

    Acho que isso fica sem resposta.

    Não importa! Os caminhos das minhas mãos serão traçados pelos pés, e coração. Qualquer surpresa, é mera coincidência.

    Eu vou seguir os rumos, os certos e incertos, que a mão esquerda ainda não foi desenhada, disse a cigana. 



    Comente aqui! / Em 14/04/14, 19:17
  • Desconfigura

    Não tenho raiva de você,
    e por isso, você me odeia mais.
    Quero seu bem, a sua paz,
    e justo isso você não suporta.
    Te quero sereno, de leve coração e pesados sonhos, quero ouvir notícias de um novo amor bonito no seu peito, que venha a suplantar os desenganos.
    Te quero são, livre dos danos. Não quero fazer parte dos seus planos, mas espero que você os faça. 
    Não se desfaça! Deixe a barba trazer o homem, esqueça um pouco o meu nome, e os xingamentos que em sua boca o acompanham. 
    Não te detesto, não te contesto. Sei que é mais fácil me ter mau caráter, do que incurado amor.
    Está perdoado! E nem precisa pedido de desculpas, sei que não é sua culpa não compreender a despedida.
    Sou memória ida! Deixe-me ir mais fluída, que toda vez que me insulta, fica mais forte a minha imagem.
    Toda essa raiva é miragem! Minha resposta é ternura.
    Quero saber dos seus passos por campos maiores e melhores que a estrada da amargura. Homem, deixa de lado essa fissura!
    O menino das férias já pegou diploma, veja, a vida não permite glaucoma. 
    Essa viagem acabou faz tempo, e toda esta saudade já desconfigura. 



    Comente aqui! / Em 07/04/14, 23:39
  • Caminho desconhecido

    Achei numa agenda antiga, 
    um tal endereço, que não conheço.
    Endereço completo, com indicação, referência, tudo bem explicadinho.
    Era difícil!
    Vire à direita tantas vezes, depois esquerda, e pior, depois escolha!
    Ladeira, beco, não duvido que houvesse pedágio.
    Mas estava tudo tão bem descrito, que apesar das dificuldades, me deu vontade de seguir a trilha.
    Fiquei curiosa, perguntei aos amigos: É sua casa?
    Todos negaram, aliviados, porque parecia realmente difícil de chegar.
    Mas nada me tirava a vontade danada de correr aquele mapa!
    Acho mesmo que eu tive planos de fazer a viagem, afinal, anotei tim tim por tim tim no dia 1º de Abril na agenda de 2008.
    Procurei nos mapas, joguei no google, nada.
    Se não está no google não existe, não é o que nos ensinaram?
    Fiquei desesperada, dias e dias com dor de cabeça, dúvidas e aquela vontade frustrada...
    Decidi, enfim, jogar fora o endereço, agenda, tudo de uma vez, e seguir com a minha vida normal, que não tem por hábito indicar estrada.
    Depois ponderei, arrependida.
    Esse roteiro tão desconhecido, será que não era o caminho da felicidade?



    Comente aqui! / Em 02/04/14, 17:00
  • Joyce te amo

    Estava escrito no ônibus inteiro: Joyce te amo
    assim, sem ponto, nem vírgula e sem explicação.
    E não porque não fosse cauteloso o autor da mensagem, pois fez questão de escrever em todos os bancos do início ao fim, e na altura dos pés e da cabeça, por exagero ou precaução. 
    Joyce te amo Joyce te amo Joyce te amo
    Não havia fuga, era amor pra todo lado, e assim sem pausa, e o ônibus lotado respirando ofegante, suando e pingando, Joyce te amo
    Faz pouco tempo puseram nos ônibus um certo aviso de etiqueta, que alerta: Não escreva no ônibus, há lugar melhor para expressar sua arte.
    Talvez o autor da mensagem, que não foi feita de caneta, nem qualquer coisa de tinta, mas talhada, talvez como Joyce no seu coração, não tivesse lugar melhor para expressar sua arte. 
    Ou talvez não fosse arte, fosse só amor.
    O amor não acabou, li num livro, só anda de automóvel. 
    Amor que paga passagem também dá o troco?
    Amor de transporte público, à luz do dia, parado no trânsito. O Rio de Janeiro anda tão engarrafado...
    Mas amor abre caminhos!
    Ou fecha atalhos.
    Joyce te amo Joyce te amo
    Atrás de mim e da senhora preferencialmente sentada
    Joyce te amo Joyce te amo
    passando pelo Catumbi, e chegará a Ipanema.
    Amor de longo alcance!
    Nem tanto. Que toda viatura, depois de dar suas voltas, sempre acaba encontrando o seu ponto final. 



    Comente aqui! / Em 26/03/14, 19:50
  • Espelho

    Olho-me no espelho.

    Não sei se gosto do que vejo.
    De um certo ângulo, 
    me estrangulo.
    Do outro lado,
    me engulo. 
    Olho-me no espelho
    e vejo olheiras nos olhos
    lábios desenhados-e até- bonitos.
    Tantos defeitos,
    detalhes e marcas
    que, feias ou belas,
    tinham que estar ali.
    No entanto,
    por mais que eu procure
    não acho
    Aquele nó no peito
    que sei que tenho,
    aquele defeito de alma, que tem
    Todo sujeito de bem
    Aquela poeira de canto
    que se esconde em baixo do tapete
    ou do coração.
    Não ouço aquela canção
    que ouvi na minha infância
    Não enxergo as cores 
    da minha memória
    Nem acho que caiba nessa pequena estatura
    todo o meu incômodo
    que é do tamanho do mundo.
    E todas as coisas
    que eu gostaria de ver e mostrar,
    metodicamente, personificar
    não dá!
    Tudo que tenho no peito
    posto ao espelho
    vira banalidade.
    Resposta à pergunta
    "feia ou bonita"?
    Vira tom de pele,
    questão de vaidade
    ou outras coisas femininas 
    e de sociedade.
    O espelho reflete.
    Reflete?
    O que ele mostra 
    o tempo tira depois de dar.
    O que há em mim
    não se mostra no espelho
    Mesmo com todo o meu ímpeto 
    De me flagrar.
    O jeito é o desespero,
    entregar-se por completo à agonia.
    Ou, quem sabe, 
    conceber-se mistério
    e fazer disso
    alguma poesia. 



    Comente aqui! / Em 17/03/14, 15:03
  • Segunda visita

    Estava eu organizando as bijuterias, colocando a maquiagem, cada qual com seu saquinho, e os vestidos no cabide organizados por cor, essas coisas de mulher, quando ela me apareceu. Cabelos curtos, vestido rosa chá, de certa forma elegante, de certa forma cansada. Muito parecida com a minha mãe, mais velha e menos exuberante.

    Olhos fundos, olheiras pesada disfarçadas com maquiagem, como aquelas que eu cuidadosamente organizava. Nunca a tinha visto, mas é como se sempre a tivesse conhecido.

    Antes que uma das duas pudesse tomar frente de um cumprimento, ficamos nos olhando, como se procurássemos as semelhanças entre nós, ou talvez os graus de distância.

    Era um olhar de afeto, de inveja, de medo, não sei. Mas não demorou muito para que eu enfim, descobrisse.

    -Você sou eu.

    Falei.

    Ela sorriu.

    -Pois é, adivinhou.

    Disse ela, como se minha descoberta fosse das mais óbvias.

    -Como eu tinha cabelos grandes e bonitos...

    Ficou passando a mão nos meus cabelos e pegou a escova para pentear, como faz uma mãe arrumando sua filha. Aceitei, virei de costas e expandi as madeixas para que ela penteasse.

    -O seu cabelo está bonito curto.

    -Ah, não tanto quanto o seu.

    -Eu gostei do seu vestido

    -Há, aproveite seus shortinhos enquanto pode.

    -Você também pode!

    -ah, como eu era romântica...

    -Quantos anos você tem?

    - O que você acha?

    Ela devolveu a dúvida.

    -50...?

    Arrisquei

    -47

    Disse ela, entre os dentes.

    -Culpa sua que não foi à academia. Graças a você, olha só aqui, vê se você gosta do que vê!

    Ela levantou o vestido de modo a me mostrar as celulites, estrias, varizes e outros defeitos femininos que sempre parecem piores aos olhos da dona.

    -Não está tão mal...E para a sua informação, eu malho, tá?

    -Ah sim, uma vez por semana quando muito. Tem noção de quantas vezes você já se matriculou e abandonou os exercícios?

    -Em minha defesa, eu estou bem.

    -Claro que está, você tem 20 anos!

    -Você fala isso como se fosse uma ofensa

    -De certo modo, é.

    -Nossa, nunca achei que eu fosse ter crise de idade.

    -Porque você tem 20 anos...

    -Olha lá, de novo esse tom de ofensa. Você veio aqui, o que, me agredir porque eu sou mais nova?

    - Também...

    -Ah, que ótimo, fique à vontade para me ofender, mas isso não muda o fato de que eu tenho 20 anos e você 50.

    -47!!!

    -Qual a diferença de três anos?

    -Um dia você vai entender...

    -Você está parecendo minha mãe...Falando nisso, como está minha mãe?

    -Como sempre.

    -E como vai nossa carreira, ficamos ricas? Somos famosas? Quantos livros já fizemos? Deu tudo certo? Ganhamos prêmios?

    Ela gargalhou.

    -Não entendi... Isso é sim ou não?

    -“Isso” é não importa. Não é nada disso que importa, será que você não vê?

    -E o que importa?

    -Um dia você vai entender.

    -Essa é sua máxima?

    -Você é engraçada.

    -Você é irritante.

    -Se prepara, é o que você vai ser.

    -Ou não. Eu ainda posso mudar o que você é. Se eu quiser, você nem existe. Sabia?

    -Isso é o que você pensa. Eu sou inevitável, mais do que você pode supor.

    -Ao menos ,me responde algumas coisas... Eu casei?

    -Casou...A gente sempre acaba casando.

    -Fui feliz?

    -Às vezes, especialmente de madrugada.

    -Tive filhos?

    -Teve, tantos e tantos...

    -Tantos assim?

    -Nem todos você pariu...

    -Ih, será que você pode parar de ser metafórica?

    -Na verdade, sinto que não posso.

    -Que amigos eu mantive?

    -A Dan.

    -Imaginei...

    -Eu casei com o João?

    Ela riu de novo, e passou a mão nos meus cabelos, dessa vez menos irônica e mais amável.

    - Isso importa?

    -Na verdade, sim.

    Respondi.

    -Na verdade, não.

    Ela devolveu.

    -Parece que você veio aqui me deixar com mais dúvidas do que esclarecimentos.

    - E isso não é bom?

    -Não

    -Sim

    -Já prestou atenção que, desde que você chegou, a gente só discordou? Será que é isso, eu viro meu oposto?

    -Clara, você realmente acha que eu sou seu oposto?

    E me virou para o espelho. Então percebi que eu não tinha mudado nada, além do corte de roupa e de cabelo.

    -Que saudade dessa casa! Tantas coisas vividas aqui...

    -Você não mora mais aqui?

    -Já tem bastante tempo que não...

    -E onde você mora?

    -Nem tão perto, nem tão longe, e preciso voltar para lá agora.

    -Mas já?

    -Eu não era irritante?

    -De fato, mas eu ainda queria algumas respostas.

    -Você terá, na hora certa.

    Revirei os olhos

    -Espero não ter te decepcionado... Seus sonhos, o que você esperava para você...

    -Na verdade, eu não sei se gostei de você, você não contou nada.

    Ela riu de novo. Como eu fiquei sorridente e irônica com o tempo!

    -Mas eu sempre gostei de você!

    -Que bom, né, eu sou você.

    -Não, eu sempre gostei de VOCÊ. E foi para te encontrar de novo que eu vim aqui.

    -E aí?

    -Percebi que eu ainda me reconheço em tudo que é seu, obrigada.

    -Isso é bom?

    -Melhor do que você imaginar.

    -Preciso ir. Receio que a gente nunca mais se encontre, mas se serve de consolo, você está sempre comigo.

    -Acho que não serve, não.

    - Nesse caso, sinto muito.

    -Ei, o que acontece com você depois?

    -Eu não sei, o que acontece com você depois?

    -Eu viro você, certo?

    -Ou não...

    -Mas você não disse...

    -Tudo depende de você. Eu só vim lembrá-la disso.

    Depois ela desapareceu, e havia muito mais que maquiagem para arrumar. 



    Comente aqui! / Em 10/03/14, 13:47
  • Visita

    Já com bastante sono, os olhos granulados pela vista cansada, pelo dia cheio que tive, finalmente resolvi que era hora de dormir, apaguei a luz e quando voltei, de repente alguém estava sentado na minha cama. Cabelos compridos, all star desenhado, postura curvada, magra, bem magra, olheiras fundas. Eu, com 14 anos.

    - O que você está fazendo aqui?

    Perguntei assustada.

    - Eu que pergunto- disse ela, quer dizer eu- Essa casa é nossa?

    -É sim.

    Disse orgulhosa, e ela olhou maravilhada no entorno no meu quarto.

    -Esse gato é nosso?

    -É sim, o nome dele é Dante.

    -Bom nome, eu sempre quis ter um gato preto.

    -Eu sei- respondi.

    - Você não vai sair?

    Clara me perguntou.

    - Não, estou muito cansada. Só quero dormir profundamente.

    -Você tem que sair!! Eu me prometi que quando eu morasse sozinha e tivesse a sua idade, eu ia sair todos os fins de semana, para onde eu quisesse, com todos os meus amigos.

    -Eu sei, Clarinha, e me desculpe por isso. Você sai de vez em quando, mas hoje realmente não dá.

    -Que chata!

    -Ih, pirralha, chata era você! Mas vem cá, me diz o que você veio fazer aqui?

    -Eu vim te ver

    -Me ver?

    -É, vim dar uma espiadinha em você.

    -E o que você achou?

    Esperei vaidosa ver a surpresa da Clara

    -É...Esperava mais-Ela disse

    - Mais? Olha só, você morando na sua casa, olha o gato preto que você sempre quis. Sabe aqueles cadernos que você escreve? Agora tem várias pessoas que adoram ler tudo que a gente faz pela internet. Você não acha isso demais?

    Ela se aproximou de mim, e disse com ar professoral:

    -Você mesma devia esperar mais de você, Clara.

    Ai, esqueci como eu era abusada.

    -Mas vem cá- E de repente ela voltou a ser menina- Me conta um pouco sobre a gente?

    Nos aproximados como duas amigas na beira da cama.

    -Bom, nós fazemos Letras na UFRJ, nós escrevemos um blog e tem cada vez mais gente interessada no nosso trabalho. Ah, escrever para você agora é um trabalho! Nós temos um namorado...

    Ela me interrompeu

    -Nós não vamos nos casar com...

    -Não-eu disse, passando a mão nos seus cabelos- mas estamos muito felizes.

    -E como vai acabar?

    Ela quis saber, já com olhos marejados.

    -Vai acabar bonito, eu prometo.

    -E quando vai acabar?

    -Isso você não tem que saber...

    -E eu não vou morrer?

    -Vai sofrer bastante, mas morrer não vai, não. Olha eu aqui inteirinha!

    Ela olhou profundamente para mim, como se conferisse.

    -E quem é nosso namorado?

    - O João...Cappelli, irmão da Dan, lembra?

    -Claro! Eu sabia que eu ia ficar com ele algum dia

    Discretamente vi que ela estava fazendo um sinal de “yes” com os braços, mas fingi que não.

    -Pois é, e está ficando há dois anos.

    - Até que você ficou bonita loira

    -Obrigada. E até que você não é tão ruim quanto eu pensava na época.

    -A Dan ainda é minha amiga?

    -Absolutamente!

    -E as meninas do colégio?

    -A Bia e a Lulu ainda são suas amigas.

    -Só elas?

    -Só.

    Percebi o desapontamento

    -Mas você terá outros amigos bem legais, fica tranquila.

    - Minhas dores de cabeça melhoram?

    -hum, desculpe, na verdade pioram

    -Eu vou escrever um livro?

    -Vai sim

    -Eu vou escrever mais de um?

    -Vai sim

    -E eu vou ser famosa?

    -Não sei ainda...

    -Clara...-ela suspirou- As coisas que ainda vão me acontecer...Vai ser culpa minha?

    Nessa ela me pegou.

    - Algumas sim, outras não. Tem coisa que não é culpa de ninguém, é simplesmente a vida.

    - Cadê nosso quadro do Che Guevara?

    -Aposentamos

    - Não acredito que você ficou assim!

    -Ei, ei, não gostei do tom. Assim como?

    -Deixa para lá, você não vai entender mesmo.

    -Não é assim tão simples, Clara!

    -Nada é.

    Ela respondeu mal humorada, e fui eu quem teve que ir atrás.

    -Não vamos brigar agora, eu realmente estava com saudades de você.

    Ela ainda emburrada.

    -Me conta, o que você está pensando, fazendo, eu acho que preciso me lembrar.

    - Bom, agora eu estou me preparando para o baile de carnaval do colégio...

    -ai que saudade!

    -Mas vou ter que ir pra Itaipava, minha mãe obrigando, um saco!

    E você? Deve estar cheia de planos maravilhosos para o carnaval, deixa eu ver suas fantasias, a lista de blocos?

    -Na verdade, eu também vou pra Itaipava.

    -Aff, ela ainda te obriga a ir?

    -Não, na verdade, Clara, eu quero ir. Quero usar esse carnaval para descansar , ler, trabalhar...

    - Nossa, como eu fiquei diferente! Parece até outra pessoa

    -É, Clarinha, acho que sou mesmo outra pessoa.

    -Clara, tem alguma coisa que você quer que eu faça por você? Sei lá, alguma coisa que você quer que eu mude, que eu faça, ou que eu não faça?

    Esqueci o quanto eu era nervosa.

    -Quero. Quero que você volte, e seja você mesma, exatamente assim. Quero que você faça tudo como quiser fazer, porque eu preciso de você, tim tim por tim tim, do seu jeitinho.

    Ela se despediu, e sorriu, os dentes de aparelho.

    Antes de se despedir, me perguntou:

    -Clara, você é feliz?

    Respondi segura

    -Somos!



    Comente aqui! / Em 28/02/14, 18:02
  • Dante não gosta de porta fechada

    Dante, meu gato, não gosta de porta fechada.

    Entre as muitas manias do meu felino companheiro de estimação, talvez essa seja a maior delas.
    Como bichinho abusado, que é mesmo a natureza dos gatos, e em especial do meu, criado na manha, no dengo, nos carinhos de uma amante e solitária dona, Dante gosta mesmo de mandar na casa.
    E lá vai ele, deita na minha cama, se espalha, deixa para mim o espaço que restou, e eu que aceite, é claro. Pois bem, está ele todo prosa, barriguinha para cima, aqueles olhinhos vesgos de quem quase embala no sono, e penso "A hora é agora". Fecho a porta.
    Mesmo na ponta dos pés, com cuidado e o silêncio mais cauteloso que consigo, ele percebe, e começa a miadeira. 
    Miau, miau, miau, por favor, abre a porta, é que costumo entender. Tento ignorar, "uma hora ele cansa", penso.
    Mas não. Dante persiste. Pula na porta, faz malabarismos, tenta abrir, e vai lá, miar perto de mim, de pupilas enormes, com a patinha no meu cabelo, já espalhado pelo travesseiro, como ordem e favor mais humilde.
    Canso, vou lá e abro a porta, deixo ele passar, e volto para a cama, de porta fechada. Ora essa, a casa é minha, mando eu, e fecho a porta a despeito da vontade de Dante.
    Não consigo. Lá vai ele do outro lado reclamar minha falta de compreensão.
    Miau, miau, miau. De novo não, é o que interpreto. E antes que o gatinho comece a se jogar na porta, dessa vez cedo, que também não sou assim tão difícil nem tão teimosa, e já sei bem que essa casa não é só minha, e que estou mandando cada vez menos.
    Ufa, abro a porta e Dante novamente se refestela feliz pela cama, de patinhas estiradas, barriguinha gorducha e os olhinhos se fecham. 
    Tenho certa compaixão, não somos assim tão diferentes. O direito de ir e vir, tão sagrado e raro, assim limitado por qualquer coisa de concreto ou complexo, é de tirar mesmo o sono.
    Compreendo a natureza libertária, também eu preciso respeitá-la para sonhar, e entro num acordo com meu companheiro de quarto.
    Deixemos a porta entreaberta, que assim é a medida justa. Não fecharemos o caminho, que isso é coisa violenta e abrupta, deixamos assim à meia luz, que eu também não gosto de escancarar, tenho sonhos tímidos da própria vontade de sonhar.
    Fica desse jeito, que não é violento para ninguém, dormimos agarrados e felizes, alguns medos não tem cura. Fica o Dante de alma livre, e a minha bem segura. 



    Comente aqui! / Em 26/02/14, 14:10
  • Do contra

    Se você diz sim, eu digo nunca.

    Se quer carinho, dou bordoada

    E se está mau humorado, dou risada.

    Se afirma, eu discordo.

    Se pede, eu nego.

    Se cede, abro mão.

    Se diz com certeza, eu claro que não.

    Se diz “não vai”, eu corro

    Se é um sufoco, acalmo

    Se nada quer, eu tudo

    E se o mundo dá, eu saio.

    Se diz “tudo bem”, rebato: “Pra quem?”

    Se diz “como vai?”, eu digo: “não vou!”

    Implicante é você! Não quero, não faço, não dou.

    Se reclama, eu abafo

    Elogia, eu reclamo

    Mas se diz que se vai...

    Eu clamo!

    Não, não se vá, por favor.

    Fica, que eu paro tudo, vamos deixar essa birra pra depois.

    Porque sou mesmo do contra,

    Mas totalmente a favor de nós dois. 



    Comente aqui! / Em 19/02/14, 21:31
  • Barriga positiva

    Chegamos ao verão, e a maioria de nós, mulheres comuns, reles mortais femininas, não conseguimos cumprir as metas que planejamos. Dieta da proteína, da sopa, da fruta, da melancia, da água, do silêncio, South beach, faça como Ivete Sangalo e perca 7 quilos em 3 dias, e por aí vai.

    Pois é, projeto verão, projeto saúde, barriga zero, agora vai, dentre tantos outros, não tão bem realizados.

    E todos aqueles blogs de dieta que seguimos, todos os tanquinhos do instagram, ficou tudo para o verão que vem. P

    Pois bem, agora eu, mera blogueira literária quero ditar a nova moda no mundo da beleza: A barriga positiva.

    Calma!

    Eu não estou dizendo para cancelar o personal trainer e correr pro Mcdonald’s .

    Calma!

    Eu não estou abandonando a academia, nem muito menos vou me descuidar, mas tenho algumas observações a fazer.

    Essa coisa de barriga negativa é uma invenção das piores. A busca pelo tanquinho é dura, afinal, há muita carne mole a trabalhar e quase sempre frustrada para as moças normais, cuja rotina é mais burocrática e cheia de atribuições menos atléticas, e nem por isso, menos artísticas.

    Não pode isso, não pode aquilo, passa já para a abdominal!

    Nem pense nisso, nem olha para lá, tira esse doce da mão e volta já para a flexão!

    Foca na moça da revista, pense na atriz da novela, já viu o corpão daquela modelo?

    Ufa, estou cansada só de pensar.

    No natal decidi que tinha planos de talhar a barriga, e para tal fim, nada de cerveja, nada de salgadinho, sumam os bombons e escondam todos os sorvetes.

    E foi então que eu entendi o tal propósito do nome “barriga negativa”.

    De fato, é o visual da negação, de uma rotina inteira baseada em dizer não. Não posso, não quero, não devo, não dá. Ah, não!

    Isso para mim não dá!

    Minha natureza insiste em aceitar a vida. E aceito não só por conformidade, mas principalmente pela alegria de dizer um sim bem dado.

    Tomo muito cuidado com o corpo e com o peso, em parte por saúde, em parte por vaidade, e não me sinto errada por isso, mas escolho afastar de mim toda a negatividade.

    E com isso, toda a frustração, tristeza, decepção, amargura, raiva, inveja, angústia, tudo que não for positivo, inclusive a tal barriga negativa.

    Sim, eu aceito um sorvete, aquele macarrão, passa um pouquinho de batata frita, que a vida anda muito dura para a gente não ser feliz. Sim, eu quero um pouco de deleite e vou tentar equilibrar, mas se às vezes eu não conseguir, que seja.

    Minha barriga não exige músculos sarados, não tem quadradinhos, divisão nenhuma. Tudo juntinho e levemente arredondado.

    Minha barriga retrata algumas caixas de chocolate, o chopp do fim de semana e um certo fraco por pizza de calabresa.

    Definitivamente, eu não tenho uma barriga negativa, tenho uma barriga feliz.

    Uma barriga contente e bem aventurada, que segue suas vontades e alterna doce e dieta. Uma barriguinha esperançosa de manter-se saudável, e ainda bem vivida.

    Sim, eu escolho a barriga positiva!




    Comente aqui! / Em 17/02/14, 09:04
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