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Ao molho pardo: As galinhas de Clarice
Quem me acompanha no twitter, sabe pelo sufoco que eu passei para terminar um trabalho de teoria literária. Meu tema nada mais nada menos que a presença das galinhas na obra da Clarice Lispector, e eu mesma escolhi esse perrengue.
Esse trabalho foi minha loucura e minha alegria e fiz muito mais por mim que pela nota. Mas... Tirei 10 e fiquei, claro, super feliz. Algumas pessoas no twitter pediram para ler. Não vou colocar tudo, porque são algumas páginas, mas quem quiser ler o resto, me avisa que eu mando.
Aí vai minha introdução...
Introdução
Qualquer leitura e análise mais atentas da obra de Clarice Lispector é um desafio provocante. A aparente simplicidade da narrativa cotidiana, transforma-se em um mergulho profundo em toda a densidade Claricena.
“Se a escritura clariceana não se deixa facilmente apreender, se com frequência parece revestir-se daquela matéria viscosa e informe sobre a qual discorre, escapando a qualquer tentativa de enquadramento, por outro lado, procura arrastar o leitor através de seus tortuosos caminhos, demolindo todas as referências para, ao final, abandoná-lo atordoado e tão desamparado quanto suas personagens. (Piantola-Daniela 2009)
O desamparo é o próprio maravilhamento da obra de Clarice, que só nos deixa as opções de ceder ou enfrentar sua voracidade. Sabendo que Clarice é um mistério literário que atravessa anos, e partindo até da definição de literatura como a leitura que não se esgota, não é a intenção desse trabalho delimitar a obra de Clarice, mas circundá-la em sua complexidade e abrangência. Se Clarice não oferece atalhos, esse estudo busca o caminho mais longo em torno da palavra absoluta, e ao mesmo tempo, desoladora de Clarice Lispector.
A análise apresentada está centrada na presença da “galinha” como personagem recorrente aos contos de Clarice Lispector, observando a correspondência e integração que ocorre entre os contos nos diversos momentos em que “a galinha” torna a aparecer. O ponto de vista defendido nesse trabalho é o de que “a galinha” que aparece nos contos “O ovo e a galinha”, “Uma galinha” e “uma história de tanto amor” tem papel correspondente e complementar, seguindo uma trajetória semelhante.
Clarice dá com muita leveza, e ao mesmo tempo densidade, uma acepção às galinhas muito diferente da gíria, e responde à retórica pergunta de quem nasceu primeiro : “Quanto a quem veio antes, foi o ovo que achou a galinha. A galinha não foi sequer chamada. A galinha é diretamente uma escolhida” (Lispector-Clarice, O ovo e a galinha).
Como acontece comumente na obra de Clarice Lispector, um aparentemente simples personagem, desenvolve uma discussão filosófica e existencial, que põe o leitor diante de suas misérias e grandezas humanas e galináceas.
Os três contos, à sua maneira, justificam com o ovo a existência da galinha. “Tanto o homem quanto a galinha têm misérias e grandezas (a da galinha é a de pôr um ovo branco de forma perfeita) inerentes à própria espécie” (Lispector-Clarice, Uma história de tanto amor). Se o ovo já era sua grandeza, Clarice também o põe como disfarce e destino : “galinha é o disfarce do ovo. Para que o ovo atravesse os tempos a galinha existe(...) Mas para a galinha não há jeito: está na sua condição não servir a si própria. Sendo, porém, o seu destino mais importante que ela, e sendo o seu destino o ovo, a sua vida pessoal não nos interessa.”(Lispector-clarice,Uma história de tanto amor).
Clarice parece exemplificar o que diz nos dois contos com “Uma galinha”, onde conta a história de uma galinha que seria comida no almoço, mas foge. Quando o dono corria atrás daquela que se tornaria sua refeição, é surpreendido com a descoberta de que a galinha pôs um ovo. “A galinha tornara-se a rainha da casa” (Lispector-Clarice, uma galinha) Ganha então, todo o prestígio com os donos pelo tempo que dura o sobressalto do ovo. “Até que um dia mataram-na, comeram-na e passaram-se anos”. Clarice encerra o conto com o que parece ser o destino fatal de todas as galinhas por sua própria condição.
“As galinhas pareciam ter uma pré-ciência do próprio destino” diz clarice, que já colocou esse destino em função do ovo e da inevitável e apática hora da morte.
As galinhas, nas três abordagens, passam pelo momento em que carregam o ovo, e se tornam especiais. Para depois, voltarem à sua simples condição de galinha e cumprir o destino pressentido: serem comidas.
Em 15/12/11, 22:12









