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Kung fu Clara
Não sou uma garota de esportes. Confesso sem nenhum pudor, e quem me conhece pelo menos superficialmente, pode concordar comigo. Meu pai já insistiu diversas vezes para que eu praticasse vôlei, basquete e até natação. Sempre fui categórica ao dizer que não. Mal participava das aulas de educação física no colégio, e nem sequer torço para um time de futebol.
Dancei balé quando era criança, e esse foi o único exercício físico ao que de fato me apeguei. De resto, desde cedo dei mais atenção ao intelecto. Opção que eu acreditava mais inteligente, e que hoje vejo tão limitada.
Acreditava, tola, que o tempo que perdesse em meu corpo, seria tempo desperdiçado para minha cabeça e emoções, esquecendo que o corpo é o principal instrumento da mente e do coração.
Mesmo sem saber do meu histórico não esportivo, se alguém for supor um esporte que eu praticaria, diria algo como balé, ginástica olímpica, hipismo, mas dificilmente artes marciais. E foi exatamente essa a minha surpresa (e depois de todos que me conhecem) quando meu namorado que já treina kung fu há anos me chamou para o treino dele com a promessa de que eu ia adorar.
Relutei um pouco. Primeiro por saber que eu seria totalmente desajeitada como fui no quesito físico em toda a minha vida, e depois pela minha ignorância no assunto. Pensei que encontraria um monte de meninos de kimono destruindo barrinhas de madeiras e fazendo coreografias do karatê kid. Por fim cedi, e a verdade é que no outro dia eu queria voltar. Voltei, e não parei de ir.
Todos os meus amigos, assim como minha família, se assustaram e até zombaram de mim. Minha mãe diz que eu tenho essa coisa de ser contraditória, e de repente aparecer com algo que nunca se espera de mim. Como pausar o livro que estou lendo para assistir a luta do Anderson silva. Mas dessa vez, nem eu mesma esperava, e não liguei para as brincadeiras. A tentativa já é meu motivo de orgulho.
Para a minha felicidade, encontrei um exercício que me permite exercitar corpo, mente e espírito. Extravaza minhas ansiedades e angústias, e proporciona até mesmo firmeza de caráter e paz interior.
As mudanças são lentas, mas quando abro os olhos para algo que antes não tinha visto, me sinto mais completa e mais viva. Aprender algo novo me mostra além do que está sendo ensinado, mas também reforça a certeza de tudo que ainda tenho e posso aprender. Quando me vejo dedicada a algo que antes nunca imaginei, percebo minha complexidade humana, minha profundidade, meus esconderijos de alma, e quanto de mim ainda tenho para descobrir.
Aos que se interessarem, não só pelo kung fu mas por qualquer arte marcial, não deixem de conferir. Às meninas, posso garantir que não é um exercício exclusivamente masculino, e a experiência com o balé me ajuda com o equilíbrio e a disciplina, ambos fundamentais.
Ainda sou desajeitada, tenho muito o que aprender. Os movimentos são difíceis, exigem concentração, força e controle da respiração. Para minha sorte, todos são pacientes e não me sinto constrangida de errar e perguntar quantas vezes for preciso “como se faz?”. Aliás, uma das felizes conquistas que, precocemente o kung fu me deu, é perder o medo de tentar, a mania covarde de dizer “isso eu não sei” ou “isso eu não quero”.
Me impressiono com quantas coisas compõem um só soco, e mais, quanta filosofia há por trás de cada movimento. Tenho nos meus (ainda poucos) treinos exemplos de pessoas determinadas, cheias de caráter e vontade de melhorar e ver os outros melhorarem.
Fico contente por saber que eu ainda posso me surpreender comigo mesma, e descobrir vontades que nunca imaginei. Mudar o foco dos olhares, ou apenas, um olhar mais atencioso, pode mudar o que se vê, ou no meu caso, quem vê. Aceitei o desafio, e encontrei muitas artes nas marciais.
Em 20/07/12, 20:26









