Na capital, onde não há saneamento em 71,2% das casas, os esgotos são despejados sem tratamento
A reportagem veiculada na edição desta quinta-feira, do Jornal Nacional, da Rede Globo, não poderia ter sido mais negativa para o Piauí, sobre os lamentáveis índices de saneamento básico na capital. A matéria mostrou que, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 71,2% das casas de Teresina estão desprovidas de uma rede de esgoto. Outra informação constrangedora para os teresinenses: segundo registros da Prefeitura de Teresina, apenas 17% das residências da cidade são beneficiadas pelo sistema de saneamento.
Esta realidade foi comparada pelo repórter à situação atual de Uberlândia (MG), onde 100% das casas estão contempladas com esgotamento sanitário, na desenvolvida região do Triângulo Mineiro. As imagens exibidas em cadeia nacional retratam basicamente os bairros Vila Irmã Dulce e Vila da Paz, localizados na Zona Sul. Remanescentes da condição de grandes favelas, produzidas pelo crescimento demográfico desordenado, ambos os bairros, de fato, se destacam negativamente no que se refere a saneamento básico, e foram usados para ilustrar a denúncia sobre a gravidade do problema em Teresina.
A matéria segue e menciona as justificativas da prefeitura, que teria atribuído este recorte do dia a dia da capital à falta de recursos e hábitos de higiene por parte da população. Nada mais depreciativo. De fato, sem recursos não há como realizar as obras necessárias para implantar um sistema amplo de saneamento básico, capaz de coletar os dejetos, canalizá-los e tratá-los através de estações de tratamento que possibilitem a não agressão ao meio ambiente. Sem recursos, os esgotos continuam correndo a céu aberto, contaminando tudo – o solo, as pessoas, os rios Parnaíba e Poti.
Conjuntura vergonhosa
No entanto, para ter verbas, é necessário compromisso com a sociedade, vontade política de fazer algo em benefício da população e planejamento eficaz. Sem a combinação destas três condicionantes, não há como mudar uma conjuntura que envergonha a todos, ou pelo menos deveria envergonhar. O problema do esgotamento sanitário, em Teresina, é antigo, e poderia ter sido minimizado há muito tempo, não desmerecendo ações neste sentido, feitas no passado – remoto ou recente –, seja pelo Governo do Estado, seja pela prefeitura. Sim, é um problema essencialmente político.
Mas o que deixa o retrato de Teresina no esgoto – ou na falta dele – é esta incapacidade histórica de colocar a questão como prioridade por parte de nossos governantes e nossa sociedade. Enquanto isto não acontecer, com certeza, continuaremos sendo desmoralizados diante de todo o País. Quem sabe, o tema seja discutido de forma mais séria no debate a ser travado nas próximas eleições municipais. É uma preocupação muito mais relevante do que a discussão provinciana em torno de personagens caricatos de uma telenovela cujo script faz graça com o Piauí.