Blog Literalmente, por Dário de Paulo Sobre
  • Demagogia falaciosa na campanha eleitoral


    Um demagogo é alguém que finge ser o que não é (ou pensar o que não pensa) para disso tirar proveito. Por exemplo, alguém que não é e se faz de vítima unicamente para alavancar a pena e a simpatia dos outros.

    A falácia, por sua vez, não é nada mais que um argumento falso que visa convencer as pessoas de algo que não é verdade. As falácias são as irmãs maldosas da presunção. Existem vários tipos de falácia, entre elas a do “apelo à pobreza”, do latim Argumentum ad lazarum. No duelo do argumento, se o indivíduo atribui razão ou valor maior à pessoa pobre em detrimento da rica apenas por ser pobre, vale-se desta falácia.

    A demagogia falaciosa teve seu triunfo no 1° turno das eleições municipais em Teresina com a candidatura de Beto Rego ao cargo de prefeito. Muitas vezes, o candidato valeu-se de se distanciar dos demais ao dizer que enfiava “o pé na lama” e que não representava os ricos, mas os pobres, como se com isso ensejasse um argumento válido, plausível e feliz.

    Eis que o 2° turno amanheceu com os apoios partidários definidos e a demagogia falaciosa encontrou um novo ninho. Um ninho tucano. As manifestações de seus partidários nas redes sociais após o anúncio do apoio do governador Wilson Martins a Elmano Férrer levam a crer que a falácia do apelo à pobreza dará o tom da campanha de Firmino Filho dentro e fora do mundo virtual.

    A estratégia do PSDB parece ser a de fazer pena, apontando para ditos caciques poderosos e empresários que se uniram para esmagar um pobre coitado de bem. É demagogia porque Firmino, o seu partido e seu grupo de apoio já andaram elogiosos de mãos dadas e fizeram de tudo para conseguir o apoio dos que hoje criticam. Ademais, não há nenhum coitado em todo esse enredo. Trata-se de falácia porque apela somente para a emoção e simpatia valendo-se do mãosantista argumento de David contra Golias.

    Firmino não é Mão Santa, não é David e tampouco um coitado digno de pena. É um ex-prefeito condecorado e elogiado que tem a aprovação de muitos teresinenses, os mesmos que o garantiram a dianteira no 1° turno. Com os pés no chão e cabeça erguida, Firmino deve usar de seus argumentos válidos, do trabalho que ele e seu partido prestaram à cidade, dos projetos que têm para realizar, não da demagogia falaciosa que dá sinais de um desespero prejudicial à sua campanha.

    Firmino é um candidato forte, mas sabe que sem apoio partidário terá o mesmo fim que Sílvio Mendes nas eleições passadas para governador. Não adianta mais, porém, o discurso apologético da sobriedade e da razão tucana. Não adianta esbravejar contra todos. Falta ao PSDB olhar para si e buscar em si os motivos para estar só. Talvez seja essa a razão de Firmino não encontrar apoio de outros partidos, afinal todos conversaram entre si.

    Chegou a hora do PSDB esquecer o discurso de apelo emocional e populista de Mão Santa, que perdeu agora as eleições; defenestrar a soberba do “só nós estamos certos” do PT que viu Wellington amargar, incrédulo, uma fragorosa derrota dentro de um partido isolado e enfraquecido para as próximas eleições e, principalmente, resta ao PSDB fazer uma campanha bonita, com o brilho que cabe a um candidato tão gabaritado que no amanhecer do 2° turno ainda pigarreia desconfiado a demagogia falaciosa que deveria ter sido enterrada com a natimorta campanha de Beto Rego.






    Comente aqui! / Em 11/10/12, 21:32
  • O negão da macaúba




    Debaixo da carnaúba
    O negão da macaúba
    Quem já foi, nem mais parece



    Tão tranquilo e sereno
    Tão suave, tão ameno
    Que quem olha nem conhece



    Esse homem educado
    Bem vestido e comportado
    Já fez muita confusão



    Explosivo e valente
    Já deu tanto em tanta gente
    Só saía de pau na mão



    Num acaso dessa vida
    Sua sorte foi mexida
    E entregou seu coração



    À dona que deu um jeito
    De ajeitar cada defeito
    Do temido valentão



    Hoje é todo "com licença"
    Dá bom dia, pede bença
    E em casa o pau guardou



    E se a mão ele levanta
    Só mosca que se espanta
    O negão se transformou



    Mas quem dele levou taca
    E foi parar numa maca
    Só no soro e no mingau



    Não bota um pingo de fé
    Que no mundo tem mulher
    Para tomar dele o pau



    Mas o negão ficou doce
    Corrigiu-se, entregou-se
    Fez-se água o que foi brasa



    E só sai acompanhado
    Com a dona encangado
    E o pau trancado em casa



    Só que avisado seja
    Se o negão tomar cerveja
    E se misturar com cuba



    Perde o tino é ligeiro
    E volta a ser por inteiro
    O negão da macaúba!























    Comente aqui! / Em 22/09/12, 14:31
  • O crème parfait

    Dois homens famintos por fama inventaram uma receita, mas não antes de revirar tudo na cozinha, jogar batatas quentes para o alto, melar muito as mãos e escondê-las no meio da visível bagunça que fizeram. 


    Ferveram a água sem que houvesse nada para pôr na panela, anunciaram um banquete e sobre a mesa puseram apenas uma estranha pasta amarela sem recheio. 


    E os convidados foram chegando. Amontoados, postos a esperar longamente, estavam com sede e com fome.


    Da cozinha em caos, escondidos e vendo que a pasta não convenceu, primeiramente gritaram lá de dentro que a culpa não era deles, mesmo que fosse. Tiveram, pois, uma ideia diabolicamente genial para justificar a lambança que promoveram. 


    Sem ingredientes íntegros, de mãos sujas e havendo sujado tudo em volta, correram para levar aos famintos uma distração. 


    Com pose de chefs, desfilaram o prato requintado coberto por um abafador com detalhes em crochet e anunciaram em voz alta a receita que o redimiriam de não terem servido o que prometeram: o "crème parfait!”


    Eis que retirado o abafador, mil olhos fitaram bestificados o prato enquanto os chefs de ocasião sumiam pela porta dos fundos. 


    Diante do prato vazio, uma voz rompeu o silêncio: 


    "Esses dois nunca tiveram nada! Zombaram da nossa fome! Prometeram tudo e aí está o resultado, nada! E quem vai limpar essa bagunça? Quem vai desfazer os destroços que esses dois causaram? Fomos enganados e a nossa fome não se resolve com prato vazio!"


    Foi aí que outro completou:


    "Caímos no conto desses prometedores de meia tigela! Vamos para a beira do rio que lá tem um lugar ideal, onde a conversa é pouca e o serviço é impecável. Vamos de PF!"


    E antes que os convidados frustrados se retirassem, um senhor de idade aproximou-se raivoso da mesa. Olhando o bonito prato vazio, ele disse sem pressa e a constatar tardiamente o que todos já sabiam:


    "Não existe crème parfait..." 




    Comente aqui! / Em 15/09/12, 11:21
  • O louco

    Um louco disse:


    “Não são raras as vezes que quem aponta o dedo quer tão somente que os olhos mirem qualquer coisa que não o seu próprio dedo sujo.


    Aquele, meus amigos, que insiste em se dizer bom e justo e humilde e espirituoso e a fustigar as ingenuidades alheias para que acreditem na sua pureza e boa intenção, dificilmente será algo mais que um calhorda.


    E o trejeito mais humano de um calhorda é a soberba. Ornamentada por uma gravata e deliberadamente disfarçada num discurso altruísta com sintomas de bondade religiosamente pensada, esta soberba estampa um sorriso cheio de si no rosto do seu hospedeiro.


    O calhorda se perde no emaranhado de suas mentiras e numa colérica pressa atropela a civilidade e a deixa clamando por socorro. Sem vergonha nenhuma, ele se diz a própria verdade e benevolência e dorme tranquilo no final do dia, pois o calhorda não se importa.


    O calhorda é caricato, exagerado e desbocado. Não poupa palavras, tampouco a paciência de quem o enxerga além do sorriso falso e interesseiro. Ele acusa, diz e desdiz sem se importar com o mal que causa a quem quer que seja. Mestre de um maniqueísmo virulento, o calhorda vai sempre se esconder atrás do seu ofício e apontar o dedo para longe de si quando um olhar atento e incrédulo se insinuar para ele.


    Todas as manhãs o calhorda pigarreia mentiras mal dormidas e, baixo que é, enxerga-se no alto de um palco e diante dos holofotes e de um público estupefato com a grandeza e bondade que ele encena com farsante maestria.  


    Enganam-se, porém, o ponderado e o pragmático que questionam como revelar a teatral anunciação desse falso herói dos desavisados. Enganam-se ao questionar o teatro enquanto deveriam se voltar tão somente para a plateia entusiasmada. É lá, entre milhões de olhares congelados, que brilha a luz do calhorda. É lá que o teatro se torna realidade.   


    Nada há a se fazer a não ser esperar que a soberba transborde no ego do calhorda e este enseje, enfim, uma aventura tão insólita, estapafúrdia e inverossímil que, aos poucos, poucos olhos vão se arregalando até se negarem a acreditar em tanta mentira.


    Então o calhorda perderá o sorriso, mas não antes de se esconder das luzes e dos olhares que tanto o inebriavam!


    E quando acabar o maluco sou eu...”



    Comente aqui! / Em 01/04/12, 22:06
  • Tespalúnias



    Tespalúnias se estelham à melvente astua


    Enquanto as corpentezas desfemem o preio


    E nas fonleias pacutas em frente ao toqueio


    Traniscam os passalos da tormeza tua

     


    E eu, poesileiro dáreo, te tispo o voceio


    Tão ravado e raveiro qual a croa da cua


    Como cafado em teio, neio que se terpetua


    Como tralido em mim, enfim te parceteio

     


    E não me compretendes, pois lavratas rovas


    Condunadas à sorbe das torbes sopovas


    Desfanem imusões das mais entarpecidas

     


    Mas qual saria a sepência nossa sem o rovo


    Sem a tormeza que nos desconlata o crovo


    E as tespalúnias das inspantes mais tralidas?

     



    Comente aqui! / Em 25/03/12, 19:45
  • O nariz que queria aparecer

    Num rosto de aparência assim comum, sem nenhum aspecto que saltasse aos olhos de ninguém, inspirava-se, sobre ralo bigode que grisalhava lenta e harmoniosamente, um nariz de rubor de quatro horas ao sol ou de três doses de rum. 

    Contrito, fungava sob os olhos negros e cheios d’água comovidos com o triste final de uma famosa poesia de Goethe que dizia: "nos seus braços o menino estava morto". Era um bom nariz, aguçado para cheiros inesperados e estranhos, arredio a gripes menos amenas e terrivelmente sensível à poesia. 

    Nunca se deixou apequenar, não muito grande que era, diante da notabilidade escassa que acomete a todos os narizes de médio porte. Sorte a sua, embora não achasse, não era motivo de piadas como o nariz de Cyrano de Bergerac

    Queria, porém, ser grande para que saltasse do despercebido rosto e enfim reparassem nele mais que no brilho dos olhos logo acima. Queria ser grande para que, frente à face, fosse visto em sua plenitude como coisa única. Odiava-se por ser compreendido e lembrado sempre com o bigode entremeando suas narinas.

    Por nunca haver sido grande, sofria. Assoava e assoava e assoava num desespero que não condizia com um nariz saudável. Foi num dia de domingo, depois de um espirro de estourar os ouvidos, que ele se deu conta que só deveria chorar novamente por amor, por saudade ou por poesia.

    Passou a ler como louco. De ditirambos a Hai Kai, lia tudo. Com certo desdém à poesia concreta, afeiçoou-se no talvez simbolismo de Augusto dos Anjos. Foi lendo "A idéia" que ele teve outra. E pensou consigo mesmo: "sendo sensível para ler, serei para escrever". E assim virou poeta.

    http://1.bp.blogspot.com/_AkwVUL1Ght0/TBwveF-OptI/AAAAAAAAMqw/teyKAACwOJg/s1600/bocage,+nariz,+nariz.jpg

    Tal qual fez Bocage com seu ditoso nariz, descreveu-se grande em rimas nobres e viciou-se em declamar. Não demorou muito para que provocasse seus vizinhos. Com seus abusos de licença poética e da boa vontade alheia, deixou a boca boquiaberta – com a devida permissão do pleonasmo – e os olhos marejados e as orelhas em pé. 

    Foi em outro domingo que, tão inesperadamente como um espirro, rompendo o silêncio e a realeza que sempre lhes coube, os ouvidos disseram abruptamente ao nariz que queria aparecer:

     “Por que não te calas?”



    Comente aqui! / Em 19/03/12, 00:38
  • A perversa e vil força do preconceito


    Não se deve, assim distante, julgar a eloqüência e a razão de pessoas que, vitimadas pelo preconceito, levantam uma bandeira de exaltação e afirmação da identidade que os uniu contra esse inimigo comum e recorrente.


    Poucos se colocam na pele de quem sofre preconceito e resta, a grosso modo, apenas a quem vive diariamente a sensação ou a certeza de que não é bem-quisto, levantar a sua voz e sacudir a sua liberdade tão ameaçada.


    É de se esperar, pois, que essa afirmação seja cada vez mais organizada e que os resultados de uma luta de muitos sejam traduzidos em novas formas de pensar, compreender e resolver problemas que a intolerância insiste em querer menosprezar.


    Não se pode, de fato, julgar, alheio aos estímulos, provocações e incômodos assimilados, a reação de quem sofre preconceito mais severo. Arrisco-me, porém, a sugerir que o mecanismo do preconceito é menos simples do que se imagina e a tecer conseqüências comumente despercebidas.   


    Ao mesmo tempo em que espezinha, o preconceito une e projeta a afirmação de suas vítimas. E não só isso. O preconceito resume estas pessoas à condição que os une, ou seja, na reação sinérgica ao preconceito, o grupo acaba por causar o esmaecimento das individualidades que o compõem.


    Escancaradas a covardia e a brutalidade do preconceito, fica escondida a sua faceta mais severa, que é a de resumir as suas vítimas ao que nelas é rejeitado. Sendo assim, na condição de reféns resta somente aos que têm sua liberdade tomada mostrar que são vítimas, reivindicar seus direitos, celebrar suas conquistas e, inadvertidamente, fazerem a si mesmos o que o preconceito faz a elas.


    Seja cor, gênero ou orientação sexual, nada disso é o bastante para pintar sequer um esboço da identidade da pessoa mais blasé entre as mais insípidas. Sendo plurais e inconstantes; indefiníveis e mutáveis, padecem as individualidades todas diante da perversa e vil força do preconceito.      



    http://bsimple.com/crowd50.jpg



    Comente aqui! / Em 16/02/12, 18:10
  • A máscara

    mask


    De detalhes rica, reflete e encanta a todos em sua volta. Cheia de história e mistérios, a máscara repousa distante em parede devidamente branca.


    Lágrimas não há. Tampouco olhos. Apenas dois vãos minuciosamente talhados nos quais pesa a confissão de que nada esconde por dentro que possa revelar; que o efeito que nos causa é em essência superficial e imediato; que não nos observa.


    Um discreto olhar caiu por sobre a riqueza simples da máscara e vislumbrou algo mais. Pegou-a com cuidado o homem. Virando-a confirmou o que imaginava. Era rústico, sem brilho e sem encanto o lado oculto do objeto estático e belo.


    Transviada a beleza, percebeu então que esta não tem propósito onde os olhos não alcançam e lamentou pela máscara. Colocou-a de volta no mesmo lugar e voltou a si da maneira que a si sempre voltava.


    Foi no caminho qualquer que tomava, se tomava qualquer, que nunca se deu conta que seu próprio rosto é máscara fincada na parede e que seus olhos vagueiam em vãos talhados; que por trás do óbvio, do aparente e do esperado de suas atitudes e de tudo que compõe o que ele titubeante chama de “eu”, o avesso de si permanece oculto, estranho e indesejável.


    Sendo assim, será a face, a verdade e o contentamento de todo homem e de toda mulher uma máscara lapidada por alheios olhares estupefatos, encantados ou reprovadores e cintilará no olhar e nas expectativas de cada um a essência bruta e cruel das verdades que se juram próprias.  





    Comente aqui! / Em 04/02/12, 11:50
  • Vamos estocar chocotones

    Deus meu, quando eu imaginava que tudo já havia sido inventado, dei de cara com um chocotone.


    Delícia fermentada e inflacionada! Devorei uns 13 nessa virada de ano. Com gotas de chocolate, com trufa, com cobertura, com chocolate extra, com chocolate melhor, com tudo que eu tinha direito. E tendo direito a tudo, ganhei também peso na consciência e na barriga.


    Pensava em aguardar cuidadosamente as festas de fim de ano e seus exageros ficarem mais longe para trás do que o carnaval para frente. Lá chegando, chegarão também as imperdíveis promoções de chocotones. Tudo pela metade do preço.


    Minha mãe deu uma ideia válida. “Vamos estocar chocotones!”. Fiquei horrorizado com a perseverança gulosa dela. Cá entre nós eu também compartilhava o sonho de um mundo assim, com chocotones à vista até o dia da independência, mas após um instante de sanidade vi o quanto isso poderia ser um passo nada mais que perigoso.


    Foi num filme, não minto, que aprendi que pequenas alterações no cotidiano podem afetar toda a realidade. E aprendi e me traumatizei. Sou fraco para filmes. Chorei nas duas vezes que assisti ao Marley e Eu e por nada nesse mundo eu me atrevo a ver a fita que mata em 7 dias do O Chamado. Nem por 5 chocotones!


    Bem, voltando ao passo perigoso que citava. Pensei: “o que seria do sorvete de creme, do bolo de chocolate e do doce de leite com os pecaminosos chocotones amontoados pelos armários da casa? O que seria de um dia normal sem a magia do fim de ano com chocotones? E o que seria da magia dos últimos dias do ano se o mundo estivesse enfastiado de chocotones?”  


    E assim pensado, assim foi dito por mim à minha mãe: “Não. Não, não, não e não. Algo me diz que não podemos fazer isso com o mundo. Compraremos, minha mãe, somente 30 chocotones na promoção. E quando acabar, acabou-se o que era doce, fermentado e impossivelmente delicioso!”




    Comente aqui! / Em 07/01/12, 12:50
  • A manhã dos dias claros e sortidos em cores


    Certo dia um poeta perdeu suas rimas numa triste viagem à constatação que as pessoas podem, se quiserem e inadvertidamente, demonstrar uma crueldade sem tamanhos contra a pureza e a inocência.


    Pisou em espinhos e gemeu em silêncio, contrito a imaginar que o mundo fosse logo dar as boas-vindas a dias claros e sortidos em cores. Seguiu calado, confuso e ferido por dentro e da maneira mais vil e violenta que uma pessoa pode ser ferida. Levando dentro de si um coração justo que batia cada vez mais forte, viu flores cinzentas e céus destroçados. Não entendia como a mentira ganhava em tamanho e forma e ruía e retorcia seus galhos broncos.


    E foi em silêncio que ele se deu conta que à sombra da dúvida se multiplicava a arrogância gratuita. Olhou para cima e viu uma réstia de luz que insistia em fazer seu caminho ao chão por entre os galhos aos milhares que encobriam o céu.


    Nesse exato momento percebeu que se fecham os olhos, amontoam-se as nuvens e encobrem a luz os galhos, mas o brilho da verdade resiste. Respirou fundo e foi em busca das rimas perdidas do seu coração.


    Achou-as empoeiradas. Passou a mão com cuidado para revelar o sentido do seu apego por elas. Viu a si mesmo, achado e perdido, de coração bom e machucado, de gestos sinceros e claudicantes e disse num silêncio melodioso:


    “Não sou as minhas rimas, mas me vejo nelas. O brilho que ensejo no coração quando a minha esperança cresce de que a bondade e a sensatez das pessoas não hão de ser devoradas por caricaturados e infames há de ser maior e notável e eu hei de sorrir como antes. Mas que fosse assim se não tivesse sido, para que eu crescesse também como agora, revigorado, certo de que a grandeza de um homem não pode se medida por nada nesse mundo que não a sua vontade de seguir assim puro e altivo na adversidade dos temporais da crueldade dos insensatos e dos desavisados. Voltei. Voltei e agora, desperto em mim, espero a manhã do dias claros e sortidos em cores”.  




    Comente aqui! / Em 25/12/11, 22:23
| © CidadeVerde.com 2013 | Todos do Direitos Reservados - Site by Masávio |