Blog Literalmente, por Dário de Paulo Sobre
  • O louco

    Um louco disse:


    “Não são raras as vezes que quem aponta o dedo quer tão somente que os olhos mirem qualquer coisa que não o seu próprio dedo sujo.


    Aquele, meus amigos, que insiste em se dizer bom e justo e humilde e espirituoso e a fustigar as ingenuidades alheias para que acreditem na sua pureza e boa intenção, dificilmente será algo mais que um calhorda.


    E o trejeito mais humano de um calhorda é a soberba. Ornamentada por uma gravata e deliberadamente disfarçada num discurso altruísta com sintomas de bondade religiosamente pensada, esta soberba estampa um sorriso cheio de si no rosto do seu hospedeiro.


    O calhorda se perde no emaranhado de suas mentiras e numa colérica pressa atropela a civilidade e a deixa clamando por socorro. Sem vergonha nenhuma, ele se diz a própria verdade e benevolência e dorme tranquilo no final do dia, pois o calhorda não se importa.


    O calhorda é caricato, exagerado e desbocado. Não poupa palavras, tampouco a paciência de quem o enxerga além do sorriso falso e interesseiro. Ele acusa, diz e desdiz sem se importar com o mal que causa a quem quer que seja. Mestre de um maniqueísmo virulento, o calhorda vai sempre se esconder atrás do seu ofício e apontar o dedo para longe de si quando um olhar atento e incrédulo se insinuar para ele.


    Todas as manhãs o calhorda pigarreia mentiras mal dormidas e, baixo que é, enxerga-se no alto de um palco e diante dos holofotes e de um público estupefato com a grandeza e bondade que ele encena com farsante maestria.  


    Enganam-se, porém, o ponderado e o pragmático que questionam como revelar a teatral anunciação desse falso herói dos desavisados. Enganam-se ao questionar o teatro enquanto deveriam se voltar tão somente para a plateia entusiasmada. É lá, entre milhões de olhares congelados, que brilha a luz do calhorda. É lá que o teatro se torna realidade.   


    Nada há a se fazer a não ser esperar que a soberba transborde no ego do calhorda e este enseje, enfim, uma aventura tão insólita, estapafúrdia e inverossímil que, aos poucos, poucos olhos vão se arregalando até se negarem a acreditar em tanta mentira.


    Então o calhorda perderá o sorriso, mas não antes de se esconder das luzes e dos olhares que tanto o inebriavam!


    E quando acabar o maluco sou eu...”



    Comente aqui! / Em 01/04/12, 22:06
  • Tespalúnias



    Tespalúnias se estelham à melvente astua


    Enquanto as corpentezas desfemem o preio


    E nas fonleias pacutas em frente ao toqueio


    Traniscam os passalos da tormeza tua

     


    E eu, poesileiro dáreo, te tispo o voceio


    Tão ravado e raveiro qual a croa da cua


    Como cafado em teio, neio que se terpetua


    Como tralido em mim, enfim te parceteio

     


    E não me compretendes, pois lavratas rovas


    Condunadas à sorbe das torbes sopovas


    Desfanem imusões das mais entarpecidas

     


    Mas qual saria a sepência nossa sem o rovo


    Sem a tormeza que nos desconlata o crovo


    E as tespalúnias das inspantes mais tralidas?

     



    Comente aqui! / Em 25/03/12, 19:45
  • O nariz que queria aparecer

    Num rosto de aparência assim comum, sem nenhum aspecto que saltasse aos olhos de ninguém, inspirava-se, sobre ralo bigode que grisalhava lenta e harmoniosamente, um nariz de rubor de quatro horas ao sol ou de três doses de rum. 

    Contrito, fungava sob os olhos negros e cheios d’água comovidos com o triste final de uma famosa poesia de Goethe que dizia: "nos seus braços o menino estava morto". Era um bom nariz, aguçado para cheiros inesperados e estranhos, arredio a gripes menos amenas e terrivelmente sensível à poesia. 

    Nunca se deixou apequenar, não muito grande que era, diante da notabilidade escassa que acomete a todos os narizes de médio porte. Sorte a sua, embora não achasse, não era motivo de piadas como o nariz de Cyrano de Bergerac

    Queria, porém, ser grande para que saltasse do despercebido rosto e enfim reparassem nele mais que no brilho dos olhos logo acima. Queria ser grande para que, frente à face, fosse visto em sua plenitude como coisa única. Odiava-se por ser compreendido e lembrado sempre com o bigode entremeando suas narinas.

    Por nunca haver sido grande, sofria. Assoava e assoava e assoava num desespero que não condizia com um nariz saudável. Foi num dia de domingo, depois de um espirro de estourar os ouvidos, que ele se deu conta que só deveria chorar novamente por amor, por saudade ou por poesia.

    Passou a ler como louco. De ditirambos a Hai Kai, lia tudo. Com certo desdém à poesia concreta, afeiçoou-se no talvez simbolismo de Augusto dos Anjos. Foi lendo "A idéia" que ele teve outra. E pensou consigo mesmo: "sendo sensível para ler, serei para escrever". E assim virou poeta.

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    Tal qual fez Bocage com seu ditoso nariz, descreveu-se grande em rimas nobres e viciou-se em declamar. Não demorou muito para que provocasse seus vizinhos. Com seus abusos de licença poética e da boa vontade alheia, deixou a boca boquiaberta – com a devida permissão do pleonasmo – e os olhos marejados e as orelhas em pé. 

    Foi em outro domingo que, tão inesperadamente como um espirro, rompendo o silêncio e a realeza que sempre lhes coube, os ouvidos disseram abruptamente ao nariz que queria aparecer:

     “Por que não te calas?”



    Comente aqui! / Em 19/03/12, 00:38
  • A perversa e vil força do preconceito


    Não se deve, assim distante, julgar a eloqüência e a razão de pessoas que, vitimadas pelo preconceito, levantam uma bandeira de exaltação e afirmação da identidade que os uniu contra esse inimigo comum e recorrente.


    Poucos se colocam na pele de quem sofre preconceito e resta, a grosso modo, apenas a quem vive diariamente a sensação ou a certeza de que não é bem-quisto, levantar a sua voz e sacudir a sua liberdade tão ameaçada.


    É de se esperar, pois, que essa afirmação seja cada vez mais organizada e que os resultados de uma luta de muitos sejam traduzidos em novas formas de pensar, compreender e resolver problemas que a intolerância insiste em querer menosprezar.


    Não se pode, de fato, julgar, alheio aos estímulos, provocações e incômodos assimilados, a reação de quem sofre preconceito mais severo. Arrisco-me, porém, a sugerir que o mecanismo do preconceito é menos simples do que se imagina e a tecer conseqüências comumente despercebidas.   


    Ao mesmo tempo em que espezinha, o preconceito une e projeta a afirmação de suas vítimas. E não só isso. O preconceito resume estas pessoas à condição que os une, ou seja, na reação sinérgica ao preconceito, o grupo acaba por causar o esmaecimento das individualidades que o compõem.


    Escancaradas a covardia e a brutalidade do preconceito, fica escondida a sua faceta mais severa, que é a de resumir as suas vítimas ao que nelas é rejeitado. Sendo assim, na condição de reféns resta somente aos que têm sua liberdade tomada mostrar que são vítimas, reivindicar seus direitos, celebrar suas conquistas e, inadvertidamente, fazerem a si mesmos o que o preconceito faz a elas.


    Seja cor, gênero ou orientação sexual, nada disso é o bastante para pintar sequer um esboço da identidade da pessoa mais blasé entre as mais insípidas. Sendo plurais e inconstantes; indefiníveis e mutáveis, padecem as individualidades todas diante da perversa e vil força do preconceito.      



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    Comente aqui! / Em 16/02/12, 18:10
  • A máscara

    mask


    De detalhes rica, reflete e encanta a todos em sua volta. Cheia de história e mistérios, a máscara repousa distante em parede devidamente branca.


    Lágrimas não há. Tampouco olhos. Apenas dois vãos minuciosamente talhados nos quais pesa a confissão de que nada esconde por dentro que possa revelar; que o efeito que nos causa é em essência superficial e imediato; que não nos observa.


    Um discreto olhar caiu por sobre a riqueza simples da máscara e vislumbrou algo mais. Pegou-a com cuidado o homem. Virando-a confirmou o que imaginava. Era rústico, sem brilho e sem encanto o lado oculto do objeto estático e belo.


    Transviada a beleza, percebeu então que esta não tem propósito onde os olhos não alcançam e lamentou pela máscara. Colocou-a de volta no mesmo lugar e voltou a si da maneira que a si sempre voltava.


    Foi no caminho qualquer que tomava, se tomava qualquer, que nunca se deu conta que seu próprio rosto é máscara fincada na parede e que seus olhos vagueiam em vãos talhados; que por trás do óbvio, do aparente e do esperado de suas atitudes e de tudo que compõe o que ele titubeante chama de “eu”, o avesso de si permanece oculto, estranho e indesejável.


    Sendo assim, será a face, a verdade e o contentamento de todo homem e de toda mulher uma máscara lapidada por alheios olhares estupefatos, encantados ou reprovadores e cintilará no olhar e nas expectativas de cada um a essência bruta e cruel das verdades que se juram próprias.  





    Comente aqui! / Em 04/02/12, 11:50
  • Vamos estocar chocotones

    Deus meu, quando eu imaginava que tudo já havia sido inventado, dei de cara com um chocotone.


    Delícia fermentada e inflacionada! Devorei uns 13 nessa virada de ano. Com gotas de chocolate, com trufa, com cobertura, com chocolate extra, com chocolate melhor, com tudo que eu tinha direito. E tendo direito a tudo, ganhei também peso na consciência e na barriga.


    Pensava em aguardar cuidadosamente as festas de fim de ano e seus exageros ficarem mais longe para trás do que o carnaval para frente. Lá chegando, chegarão também as imperdíveis promoções de chocotones. Tudo pela metade do preço.


    Minha mãe deu uma ideia válida. “Vamos estocar chocotones!”. Fiquei horrorizado com a perseverança gulosa dela. Cá entre nós eu também compartilhava o sonho de um mundo assim, com chocotones à vista até o dia da independência, mas após um instante de sanidade vi o quanto isso poderia ser um passo nada mais que perigoso.


    Foi num filme, não minto, que aprendi que pequenas alterações no cotidiano podem afetar toda a realidade. E aprendi e me traumatizei. Sou fraco para filmes. Chorei nas duas vezes que assisti ao Marley e Eu e por nada nesse mundo eu me atrevo a ver a fita que mata em 7 dias do O Chamado. Nem por 5 chocotones!


    Bem, voltando ao passo perigoso que citava. Pensei: “o que seria do sorvete de creme, do bolo de chocolate e do doce de leite com os pecaminosos chocotones amontoados pelos armários da casa? O que seria de um dia normal sem a magia do fim de ano com chocotones? E o que seria da magia dos últimos dias do ano se o mundo estivesse enfastiado de chocotones?”  


    E assim pensado, assim foi dito por mim à minha mãe: “Não. Não, não, não e não. Algo me diz que não podemos fazer isso com o mundo. Compraremos, minha mãe, somente 30 chocotones na promoção. E quando acabar, acabou-se o que era doce, fermentado e impossivelmente delicioso!”




    Comente aqui! / Em 07/01/12, 12:50
  • A manhã dos dias claros e sortidos em cores


    Certo dia um poeta perdeu suas rimas numa triste viagem à constatação que as pessoas podem, se quiserem e inadvertidamente, demonstrar uma crueldade sem tamanhos contra a pureza e a inocência.


    Pisou em espinhos e gemeu em silêncio, contrito a imaginar que o mundo fosse logo dar as boas-vindas a dias claros e sortidos em cores. Seguiu calado, confuso e ferido por dentro e da maneira mais vil e violenta que uma pessoa pode ser ferida. Levando dentro de si um coração justo que batia cada vez mais forte, viu flores cinzentas e céus destroçados. Não entendia como a mentira ganhava em tamanho e forma e ruía e retorcia seus galhos broncos.


    E foi em silêncio que ele se deu conta que à sombra da dúvida se multiplicava a arrogância gratuita. Olhou para cima e viu uma réstia de luz que insistia em fazer seu caminho ao chão por entre os galhos aos milhares que encobriam o céu.


    Nesse exato momento percebeu que se fecham os olhos, amontoam-se as nuvens e encobrem a luz os galhos, mas o brilho da verdade resiste. Respirou fundo e foi em busca das rimas perdidas do seu coração.


    Achou-as empoeiradas. Passou a mão com cuidado para revelar o sentido do seu apego por elas. Viu a si mesmo, achado e perdido, de coração bom e machucado, de gestos sinceros e claudicantes e disse num silêncio melodioso:


    “Não sou as minhas rimas, mas me vejo nelas. O brilho que ensejo no coração quando a minha esperança cresce de que a bondade e a sensatez das pessoas não hão de ser devoradas por caricaturados e infames há de ser maior e notável e eu hei de sorrir como antes. Mas que fosse assim se não tivesse sido, para que eu crescesse também como agora, revigorado, certo de que a grandeza de um homem não pode se medida por nada nesse mundo que não a sua vontade de seguir assim puro e altivo na adversidade dos temporais da crueldade dos insensatos e dos desavisados. Voltei. Voltei e agora, desperto em mim, espero a manhã do dias claros e sortidos em cores”.  




    Comente aqui! / Em 25/12/11, 22:23
  • A inquestionável e imprescindível entrada da PF no caso Fernanda Lages


    Hoje a entrada da Polícia Federal para investigar a morte de Fernanda Lages é inquestionável e imprescindível.


    Para que se chegasse a esse ponto foi preciso, porém, que se questionasse e se prescindisse, de maneira arbitrária e inconseqüente, do trabalho da Polícia Civil que, debaixo de fogo, ferro e da insatisfação de uma sociedade atiçada e alimentada dia após dia com a zombetearia de muitos e os boatos, teses e mentiras de tantos outros, fez o seu papel de preservar o inquérito em respeito à verdade e, por conseguinte, à sociedade que clama por justiça.


    Se um céu cinzento encoberta a lucidez e os olhos de grande parte dessa sociedade, que em denuncismo histérico apedreja verbalmente o aparelho de segurança do estado, não é culpa da Polícia Civil. Disso os delegados que trabalharam no caso têm a certeza e merecem a confirmação.


    É por isso e somente que a entrada da Polícia Federal em muito agrada toda a equipe de profissionais da Polícia Civil envolvidos no caso Fernanda Lages. Eles tiveram o seu trabalho e seu valor postos à prova e preservaram o inquérito sem piscar os olhos diante do tremor social horrendo que os ameaçava. Não se renderam às provocações, às ameaças, às teorias e às contradições alheias e perdidas no caminho.


    Afora a Polícia Civil, é de interesse de toda a sociedade piauiense que a Polícia Federal seja, com urgência, requisitada para investigar o que houve dentro da obra da Procuradoria da República. Se por intermédio dos promotores ou do governador do estado, pouco importa. De certo não há mais deleite de ninguém frente à disputa de arrogâncias e tampouco paciência para o embate de prestígios. Já chega. 


    Resta à sociedade, que clama por justiça, saber o que entender quando virem, de olhos arregalados, qualquer movimentação no sentido de evitar que a Polícia Federal entre no caso ou de, nas entrelinhas, sugerir que sua participação no mesmo não surtirá efeito nenhum na busca pela verdade.


    Essas movimentações poderão se expressar, por exemplo, em meras explicações do porquê de não caber à PF entrar no caso; nas insinuações de que o trabalho da instituição estaria condenado por qualquer motivo prévio à sua entrada no caso; por meio de supostos atrasos nas deliberações ou até mesmo, mais tragicamente, em resoluções contra a entrada da PF munidas de claras, diretas, simples e impiedosas justificativas.


    O Piauí assiste hoje a um choque de instituições, uma troca de descortesias, uma exacerbação de boatos e uma presunção de culpa sem precedentes. Vidas e honras estão em jogo e jogadas ao vento que tange ciclones. Só a verdade trará calmaria.


    Inspirados nessa calmaria vindoura é que devemos todos saber: só interessa a quem não interessa a verdade, certamente, impedir que a Polícia Federal entre no caso Fernanda Lages.

     



    Comente aqui! / Em 01/11/11, 11:20
  • Caso Fernanda Lages: a insatisfação da sociedade


    À véspera da conclusão do inquérito do caso Fernanda Lages, a Polícia Civil do Piauí enfrenta a insatisfação da sociedade.


    Exaustas pela demora e com sede de justiça, as pessoas lançaram os olhos a uma esperança que nasceu nas descomedidas e corajosas declarações do promotor Eliardo Cabral. Esses olhos brilharam diante do destemor que anunciava justiça e não só isso, alertava para supostas manipulações da investigação.


    Nos últimos dias os promotores afastaram-se do núcleo policial e fizeram indagações e acusações públicas, inclusive a de que a polícia estaria fingindo investigar o caso. Dentre as razões apresentadas, a mais saliente é a de que haveria interesses de um dito “figurão”.


    A história ganhou diversas versões e panos de fundo. Mudou-se tão rapidamente quanto ganhou dimensão de verdade. Com esta convicção, compartilhada pela sociedade, foi iniciada pelos promotores Eliardo e Ubiraci uma investigação paralela no Ministério Público com a finalidade de desmontar álibis e dar um ponto final e feliz ao caso.


    O momento chegou, porém, em que a sociedade deu por finda a paciência. Com a imagem de suas instituições em xeque, Polícia Civil e Ministério Público têm a obrigação, sob o risco do descrédito pleno e profundo, de apresentar à sociedade a verdade.


    A Polícia Civil demonstra serenidade para enfrentar esse embate com provas técnicas passíveis de análise por qualquer entidade investigativa. Já o Ministério Público, através dos dois promotores, fez acusações graves para as quais a sociedade aguarda, com expectativa, as provas e o desfecho devido.


    Se a Polícia Civil, com o enorme quadro de delegados, peritos e técnicos, bem como a colaboração de peritos da Paraíba e da Polícia Federal do Piauí, “fingiu investigar”, como alegaram os promotores, deverá ser exemplarmente punida. Se alguém “obstruiu” as investigações, como também alegaram os promotores, deverá passar pelo mesmo. Isso é grave e não pode se encerrar em alegações televisivas.


    Não resta dúvida que a sociedade quer justiça e sabe que esta virá com a verdade. A confiança depositada no Ministério Público é natural e necessária, mais ainda com o agravante da seriedade deste triste caso, mas essa confiança será desperdiçada caso se ateste que essas variadas acusações foram feitas sem provas, sem fundamento ou tendo em vista qualquer interesse nada público.  


    Se não apresentarem as devidas provas ou reparações publicamente, os promotores serão responsáveis pela maculação da imagem do Ministério Público e por uma revolta sem precedentes da sociedade que chegou ao limite e quer uma reposta. E não qualquer resposta.


    Enquanto não há mais paciência para com a vagarosidade e o silêncio da Polícia Civil, também não há para com as alegorias discursivas, as metáforas cômicas, as provocações ardilosas, as incitações à fúria e as acusações vazias por parte do Ministério Público.


    Tão serena e simplesmente a verdade espera que o caminho lhe seja aberto de uma vez por todas.  

     



    Comente aqui! / Em 24/10/11, 00:44
  • Quando se confundem o poeta e a poesia


    Mesmo no verso mais sutil, quando um poeta exalta qualquer beleza ou virtude e escolhe as palavras mais adequadas para tal, deixa impressa a destreza rude que acolhe e esconde os preceitos que, na sua matemática, o fazem um poeta.

    Escravo do belo, este poeta defende a escorreição da poesia, que não somente se ocupa de rimas e ritmo, mas do que é dito e propriamente dito e nesse embate define o que é venerável aos olhos de um mensageiro do belo.

    E assim conta a natureza e o amor com analogias fulgentes e contentes, traduzindo o mundo e o homem à margem de um papel de cores vivas. Eis que o belo se confunde com o que é bom e feliz e a poesia se atém à referência e reverência destes.

    Ao exaltar o que ele exalta, tal poeta evita transgredir os preceitos que o dão o título de poeta e assim ele consolida a idéia que o foi servida e também lhe serviu para que definisse a si próprio.

    O poeta, pois, vê a si próprio nos versos que escreve e os deseja agradáveis, aceitáveis e cabíveis. Assim, mesmo no verso mais sutil, não cabe o que é feio, mal-educado, imoral e insolente; não cabe o que não é dito puro, bom ou adequado e que exatamente por não ser dito, acaba por não o ser de fato. 

    Que rimas e conseqüências não trazem tais poesias para o papel das nossas vidas? Que restos de vida não deixam perdidos, sem valor e alor no fundo da imaginação que não ousa tomar forma e força de coisa real e realmente digna de ser exaltada?  

    É preciso que a poesia seja mesmo arte liberta, certa do exílio do artista; que vá além dos jardins das flores bem-cultivadas; que talvez tropece e se suje e nem por isso se deteste; que seja, a seu modo, espontânea, voraz, quieta, mesquinha, alegre ou secreta; que seja bela por ser o que é e que seja o que for: qualquer coisa além do poeta e do seu reflexo tortuoso no raso dos versos que escreve.




    Comente aqui! / Em 20/10/11, 08:55
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