Blog Literalmente, por Dário de Paulo Sobre
  • Reforma política: os pormenores da Lei Tiririca e da lista fechada

    Catapultado à Câmara Federal com muito humor e votos a perder de vista – e levando ainda mais três colegas na aba de seu chapéu – Tiririca tem provocado reações viscerais desde o dia que lançou sua candidatura.


    Chega agora, na face austera de Michel Temer, a “Lei Tiririca” para sanar um problema irrefutável do voto proporcional: a eleição de candidatos que sofrem da temida hiposufragia.


    A Lei Tiririca, ou distritão, transforma a eleição proporcional em majoritária, ou seja, se um estado tem dez vagas para Deputado Federal, serão eleitos os dez mais votados. Os críticos dessa proposta ressaltam, com veemência e até razão, que ela assina o decreto de extinção dos partidos políticos. Os pormenores, porém, são muitos quando se (mal) trata de reforma política.


    Fato é que na eleição proporcional para deputados, tal como funciona atualmente no País, o entendimento e procedimento é que o voto é do partido, mas cabe ao candidato fazer sua eleição e é em candidatos que votam os cidadãos. Neste caso, ao deixar a luta – ideológica, política e econômica – nas mãos de quem pleiteia o voto, a instituição partidária não tem a força, organização e nem cumpre o papel que deveria.  A Lei Tiririca, por sua vez, atesta essa realidade mais do que a promove e devolve o bônus a quem tem o ônus, ou seja, o candidato.


    Mas não é simples assim. A Lei Tiririca certamente leva a níveis mais preocupantes o raquitismo já diagnosticado dos partidos enquanto instâncias e agremiações de idéias e propostas e acelera a individuação da política, abrindo ainda mais espaço para neo-coronelismos e novas sortes, e azares, de assistencialismo. E agora?


    Chamem os cientistas políticos e perguntem afinal o que é pior, ficar com os candidatos que o povo escolhe livre e desastrosamente ou com os papagaios de pirata que não têm a representatividade necessária para assumir nem mesmo uma vaga de síndico. De certo só sabemos, e por experiência, que ficar com todos eles tem deixado muita gente tiririca da vida.


    Eis que as estrelas do PT vêm ofuscar o inconfundível e improvável sorriso de Michel Temer com a proposta da lista fechada, que obviamente visa fortalecer os partidos, mas abre precedentes temíveis para o processo político se não houver um acompanhamento, preparo do organismo partidário, reestruturação de sua força e sanidade.  


    Os partidos devem ser cobrados e fiscalizados, pois da mesma maneira que a Lei Tiririca pede por uma sociedade politizada que saberá pesar os critérios adequados na hora de votar, a lista fechada pede por partidos civilizados, que hoje claudicam na direção da unidade e parecem não perceber que só chegarão lá cuidando, primeiramente, da própria saúde.


    O remédio é o tempo e a boa vontade. A adoção do sistema distrital e lista fechada é conseqüência imediata de uma sociedade politizada com partidos civilizados, que se dará na ainda primária escola democrática brasileira.


    Com a reforma política, retificadora, jogamos o olhar inquisidor para a classe política, sendo que o problema é tão mais profundo e mora não na cabeça do político ou do eleitor, mas na relação criada entre os dois, cheia de esperanças e desilusões. É necessário que a postura de ambos seja renovada para que essa relação sirva para o benefício político-social do País.


    Agora chamem novamente os cientistas políticos: no que devemos apostar, na reforma política ou na boa vontade de sufragadores e sufragados?



    Comente aqui! / Em 22/02/11, 11:37
  • A ira do Irã contra a liberdade de imprensa

    As frias grades das prisões do Irã escondiam, no ano passado, um terço dos jornalistas presos em todo o mundo.


    No País em que as linhas tortas de Deus são mais evidentes e intragáveis, é em nome dele que religiosamente se tolhe a liberdade de imprensa, entre tantas outras.


    Este é o Irã de Khomeini e da ‘desiluminização’ das universidades; da lei de Sharia e da Fatwa sobre Salman Rushdie; o Irã de Ahmadinejad que nega o holocausto; que condena à morte os homossexuais e à dúvida o mundo receoso de sua intenção nuclear; o Irã de Khamenei com a concepção de que a música corrompe as crianças e de que a imprensa é demoníaca; o Irã de um povo excitado pelos egípcios a lutar por liberdade.


    Mas essa liberdade tem inimigos poderosos. Não bastasse Khamenei e Ahmadinejad serem citados entre os "40 predadores da liberdade de imprensa" pelo Jurist Report ; o Irã receber a (des)homenagem de “maior prisão para a mídia do Oriente Médio” e ladear a China no pódio dos países mais problemáticos no recente relatório “Ataques contra a imprensa 2010”,  nesta semana, para a não surpresa de todos, o Irã instituiu uma corte e promotoria especiais para tratar dos “crimes de imprensa e cultura” a fim de suprimir as manifestações no País após a queda do ditador do Egito.


    Apressaram-se e já na terça-feira os membros do parlamento da teocracia iraniana pediam a morte de dois líderes das manifestações contra o governo, adormecidas desde as suposta e provavelmente fraudulentas eleições de 2009 que garantiram a Ahmadinejad, o auto laureado “amigo do povo”, ser eleito com a benção e força do sucessor de Khomeini, Aiatolá Khamenei.


    Bênçãos à parte, as revoltas no Oriente Médio são centelhas de uma liberdade que fulgura no íntimo de todos. Ahmadinejad e Khamenei são dois pneus velhos cheio de água no terreno baldio do mundo. Os dois devem ser guardados das chuvas de manifestações sob o teto da prisão de Den Haag até que se decida o fim deles, que, aliás, poderá ser o início não somente de um novo Irã, mas de um mundo melhor.


    Devemos agradecer ao povo egípcio, bem como reconhecer e defender o papel fundamental da imprensa livre para a queda de Mubarack e para a formação das densas nuvens que hoje cobrem o Oriente Médio a prometer tempestades e enxurradas e, em breve, revelar os escombros das ditas duras paredes dos velhos palácios. 



    Comente aqui! / Em 19/02/11, 02:49
  • Somos todos poetas

    O que é poesia? No instante da pergunta as bocas se apressam a explicar o que a mente já enseja em pensamentos de amor, ufanismo, beleza e palavras tão louváveis quanto cultas.

     

    A idéia de poesia está impregnada de romantismo e de uma mania, ou melhor, um dever de exaltação do belo, do bom e do justo. E o que fazem os que se dizem poetas? Rimam virtudes e sonhos bons, proclamam o amor e endeusam musas com ares parnasianos e palavras que não são as do dia-a-dia. 


    Aquele que se diz e quer se chamado de “poeta”, entregue ao conceito e à forma que o ideal de poesia reclama, e nos moldes de um romantismo descabido e desmedido que não questiona a si próprio, tagarela as coisas que legitima como boas e belas. Mas poesia não é exaltação. 

     

    Não é preciso que seja bela ou que do belo se sirva. Poesia é um convencimento que se faz às palavras que não matem umas às outras; que se assemelhem e se dêem sentido fora da analogia da lógica a que obedecem diariamente. O bom poeta é um adestrador capaz de fazer presa e caçador correrem juntos e libertos num turbilhão de sentidos. 

     

    Não se pode exigir que a poesia seja rebelde, apaixonada ou suntuosa. São apenas palavras em confronto e harmonia, sacudidas e excitadas a ponto de provocar o que o poeta deseja. Se este deseja, enfim, que sua áurea seja impressa nos versos que escreve, que procure então um espelho para que se gabe de si, não a poesia.

     

    É um grande desfavor o que os românticos poetas fazem com a vida quando usam a poesia como espelho de um ego que não se tolera sem reflexos e aplausos. É um grande desfavor o que os românticos poetas fazem quando evitam deixar que as poesias sejam livres e entender que eles, sim, é que são os prisioneiros.

     

    E quem se arriscaria a descrever o que é poesia? Seria, por assim dizer, um exercício da mentira em favor da verdade? E que verdade? A de que tudo no mundo que é escrito, dito, postulado, impresso, digitado, proclamado, delegado, sacramentado, jurado, prescrito, conclamado, promulgado e consagrado, é poesia.

     

    Sendo assim, somos todos poetas na ciência e no sacramento dos nossos dias. Somos todos poetas no embate e na afirmação de nossas verdades. Somos todos poetas na explicação que demos ao mundo e a nós mesmos; nos caminhos que nos permitimos e trilhamos; na congregação em que nos filiamos; na fé que temos e no que nos dedicamos a fazer para que nos conheçamos e sejamos, desta maneira, reconhecidos.

     

    Quando se diz que o poeta nunca deve ser coagido a explicar os seus versos, creio, estamos resguardando todos os discursos do confronto com as analogias que eles querem escondidas e com a fragilidade que eles intentam suplantar.

     

    É por isso que a poesia é tão mais que exaltação, harmonia e rimas: É o contraponto fantástico e imaginário dos discursos todos que almejam solidez e universalidade; é a fantasia para qual apontam afim de que suas próprias fábulas e analogias passem despercebidas. 




    Comente aqui! / Em 17/02/11, 23:19
  • O amor tem dessas coisas

    O amor tem dessas coisas. Ele se manifesta até na contrariedade dos gestos e se confunde quando bem entende ou mal se explica.

     

    O carinho esnobado pelo ciúme e a desaprovação regada da animosidade comum aos que amam são centelhas que fazem parte do brilho do amor.

     

    Esse brilho ofusca. Quando confundidas as emoções quase sempre explosivas dos amadores, profissionais ou não, no clarão desses instantes de rompantes, o amor atende por rancor e se alimenta das agruras que vai se permitindo expressar. 

     

    Será ele mesmo assim tão estranho e contrário a si próprio? Talvez não. Cá entre nós, é caolho o luso-poético olhar de Camões sobre o amor. 

     

    O amor é uma semente. Todo o resto, o que se enraíza na gente e o que aflora nos nossos nervos, é outra coisa. As tempestades, secas, más-safras, solos inférteis, ervas daninhas e pestes de toda sorte formam um mundo novo e não admirável no qual a semente, rompendo a sua latência, terá que persistir e se transformar.

     

    A adversa realidade provoca o amor e o desafia. As monoculturas de romantismos e lirismos retirados de contos de fada fadam o amor à mesmice. Aqueles amores mais selvagens, originais e inatos vão sendo devastados para dar lugar a outro mais doce, rentável e ilusório.

     

    O amor agora é transgênico, transviado, dimensionado, direcionado e edulcorado para agradar ao mercador. Mas a que custo? Será alarmismo verde imaginar que isso poderia destroçar, talvez e quando menos esperarmos, a nossa essência? 

     

    Que será do carinho que só saberá se manifestar em datas festivas, devidamente embrulhado em papel de presente? Que será da gratidão quando esta tiver tudo de protocolo e nada de mais nada? E o que será de nós quando nossas expectativas e exigências ao outro quiserem domá-lo dócil, cruel e imperceptivelmente? 

     

    Já estamos destroçados, pois o amor virou remédio pateticamente patenteado e vem sendo falsificado num galpão cinzento de uma esquina perdida.

     

    É farinha. Isso. Aquela do mesmo saco. 

     

    E tem muita gente de saco cheio.



    Comente aqui! / Em 16/02/11, 22:03
  • Sobre

    Olá e bem-vindo. Meu nome é Dário de Paulo. Sou jornalista, mestre em sociologia da comunicação e estudos culturais; escritor, poeta e compositor.

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    Dário de Paulo



    Comente aqui! / Em 16/02/11, 15:05
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