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O ecocidadão

Era uma vez um homem que amava a natureza e demonstrava seu carinho a ela todos os dias.
Reciclava o lixo religiosamente. Era muito cauteloso com o desperdício de água. Conta-se que até fazia xixi durante o banho e sabia, ao final de cada mês, quantas descargas economizou.
Não lhe era aprazível a presença de conservantes. Se quisessem forçá-lo ao constrangimento bastava que lhe oferecessem salsicha ou sardinhas.
Carne vermelha ele evitava com classe. Apesar das promessas e tentativas, porém, nunca conseguiu adotar o vegetarianismo. Era, sabe-se bem, um apaixonado por frango desossado acompanhado de salada de batata com maionese.
No quintal de casa ele tinha uma pequena horta, um pé de acerola e três samambaias. Dava-se, aos domingos, o tempo necessário para cuidar do seu quintal e impecavelmente, no final da tarde, aguava as samambaias assobiando músicas de Frank Sinatra.
Não sabia inglês, mas estudava. Era visto sempre carregando alguns livros. Tinha cuidado com o seu carro, que aos sábados evitava usar para poupar a camada de ozônio. Era um ecocidadão.
Vivia só. Amigável na maioria dos poucos encontros com os vizinhos, não era de falar muito. No mínimo que falava, demonstrava educação e gentileza. Passava muito tempo em casa.
Ciente de que era apenas um, fazia o seu papel por um mundo melhor. Sabendo da importância e generosidade dos seus atos diários e da sua postura na sociedade, julgou-se correto e, diga-se, apropriadamente.
Um dia, entre um tsunami no Japão e a erupção de um vulcão no Chile, ele fez parte de um grupo que fazia parte de outro grupo e todos compartilhavam interesses, idéias e propostas para o meio ambiente.
Já não era um só. Não se sentia mais um estranho, tampouco um louco que queria mudar o mundo. Foi então que seu discurso e suas ações encontraram espaço para crescer mais forte e visível.
Ocupou-se de apontar os malfeitores e os canalhas do mundo industrial e de preservar a frondosa árvore da sustentabilidade no caminho que leva ao progresso. Fez disso a sua vida e cegou para todo o resto.
E foi assim que um homem com sinceros, justos e simples propósitos se transformou num grandessíssimo chato.
Em 03/07/11, 16:07









