Blog Literalmente, por Dário de Paulo Sobre
  • O dia que Teresina congelou


    Eu tenho um rádio de pilha vagabundo que, fiel ao predicado auferido, nunca funcionou. Aliás, até hoje. 

     

    Acordei antes que o sol desse a graça e sem saber quem diabos estava ouvindo aquela música de banana às alturas. 

     

    Já fui logo pondo a culpa no trio elétrico que deixam estacionado perto do prédio. Ao abrir a janela, já era hora de haver suspeitado do radinho. Era hora de achá-lo e quebrá-lo de uma vez, por todas as vezes que nunca deu a ousadia de um estalo sequer.

     

    Não fiz nada disso. Na janela eu fiquei, pois estava frio. Da janela não saí, pois estava nevando. Sim, estava nevando, tanto que não mais enxergava o letreiro do China in Box e a Presidente Kennedy parecia uma esteira de tapioca. 


    Com o rádio em mãos e a vista de um mundo branco ao alcance, resolvi mudar a estação. Ruídos, zunidos, pronto, Bartô Galeno. E lá fora o povo saindo de casa, escorregando, deslizando, rindo e se tremendo de frio. Uns enrolados em lençóis, outros desenrolados, em maus lençóis.

                                                                                

                                                                                                                          Av. Pres. Kennedy

     


    Fome. Fui à geladeira. Pizza gelada à vista, mas não por muito tempo. Próxima parada, a sacada. De lá vi o Garrincha no quintal só de calça jeans passando a mão na cabeça do Tuquinha dele. “Eita véi doido”, disse baixo ou pensei alto.

     

    Resolvi dar uma volta na cidade, mas só mais tarde, quando o povo fosse trabalhar. Todo mundo, porém, até esse momento e até onde eu via, parecia nem se lembrar de mais nada. Eram todos um bando de meninos.

     

    Passei pelo São João, que é perto, e a conversa lá era que uma senhora já estava era roxa de frio e que, logo em frente, o Seu Amaral se enrolou em todas as redes da casa e não largava a panela de cozidão por nada nesse mundo ou em outro.

     


     Galinha no rio Poty



    De passagem pela ponte da Frei Serafim, vi o rio Poty. Era gelo puro. Um monte de galinhas correndo em cima. Enconstei na assembléia. Lá o João Mádison dizia que o plenário estava mil vezes mais frio que noite de cruviana em curral de boi e o Mauro Tapety não dizia nada. De braços cruzados e rapé no bolso estava com cara de quem amaldiçoava o frio.


    Ao sair de lá, passo por um cidadão dirigindo quase mais rápido que uma bicicleta. Quando olho pelo retrovisor vejo que o pára-brisa do carro dele estava coberto de neve, restando apenas um quadradinho do lado do motorista. Quando me espanto eu me dou conta que era o Pires de Sabóia. Nunca vi o fiesta dele tão branco, meu Deus.

     

    Rumo ao centro da cidade, próximo ao Batalhão, achei outro que teve problemas com o carro. Fiz o Dr. Ricardo Lobo prometer que ia baixar o meu LDL para que o ajudasse a tirar o carro dele de uma vala outrora e elegantemente coberta de neve. 

     

    Mais à frente, na Praça Pedro II, todo mundo rindo. Menino doido mastigando neve e gente grande tomando sorvete de garapa e comendo pastel num desses chineses que têm por lá. O Karnak estava lindo. Dava até pra gostar. As carnaúbas cheias de neve. A igreja, mais para a esquerda, parecia um bolo de casamento.

     

    Com os olhos de volta ao prédio do governo, senti falta do Louro das cadeiras. O calçadão era a coisa mais limpa. A mulher da banca apontou para o Hyper Suco. “De dez em dez minutos ele vai lá comer um misto pra rebater”. Pronto, me deu fome de novo. Fui acompanhar o Louro em algumas rodadas de misto. Dei de cara com o Flávio Nogueira chegando no IAPEP de terno e gorro.  

     

    A reação de todo Teresinense, ao que me parece, foi a mesma. Comer, e muito. Resolvi ir ao Teresina Shopping. Já antecipava o fuá que eu iria encontrar, mas nada parecido com o que vi. Um caos. Tive que estacionar no Riverside e fui caminhando.

     

    Lá dentro, caldinho de feijão do João Claudino. Ele mandou distribuir enquanto o povo esperava nas filas para comer. Os copinhos eram de brinde, que ótima idéia. Resistentes, coloridos e com o nome do restaurante El mano. Demais. E por falar em “demais”, de um lado pro outro se via o Mariano. Estava tão eufórico que pela primeira vez o povo estranhou. Doido por neve, o rapaz. 













     Ponte estaiada 



    Resolvi voltar para o Toulouse. Peguei o rumo da ponte estaiada. Pense numa ponte bonita. Parecia um anjo da cabeça grande dando um abraço de asas na gente. Depois que eu passei tive a impressão que havia alguém no elevador dando com a mão para mim.   

     

    Em casa, que é um apartamento, procurei me agasalhar e saber que loucura foi essa. Na TV tudo era sobre o clima e a surpresa que a febril Teresina nunca imaginou nem em delírio. E cá para nós, eu nunca tinha visto tanta bota e cachecol na coluna do Péricles. Só na Sheilanne Soares tinha 3 cachecóis. Um no pescoço por causa do frio, um jogado no ombro para complementar o look e outro sendo usado como cinto para... inventar moda, eu acho.  

     

    Preparei um café e me enrolei em tudo que era trapo antes de sentar para escrever o que vi hoje, afinal não é todo dia que dá 20 graus por essas bandas, da mesma forma que não foi sempre que o teresinense teve que levar dinheiro extra em bolso fácil para que o bandido da esquina desaparecesse sem deixar para trás uma manchete de jornal.

     

    Brincadeiras à parte, hoje eu acordei sim com o rádio barulhento. Todo o resto é conversa fiada, piada saudosista. E para deixar bem claro, eu já vi uma Teresina que para entrar em casa não se tinha que olhar para os lados e que ao sair de casa não se pensava no pior.

     

    É hora, ou já passa dela, de cada um de nós, como o barulho do rádio, despertar quem for preciso pela Teresina que sonhamos, antes que o pesadelo da violência seja aceito como nossa realidade.

     

    Brincadeiras à parte, a cidade verde quer é paz. A neve que se dane. 





    Em 27/07/11, 23:48

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