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Conversa pra boi dormir

Tudo nos conformes na fazenda. Até um dia desses.
Não é que um rato apareceu para espalhar uma história cabeluda que deixou as ovelhas todas em estado de loucura? O bafafá foi geral. Não tinha berro que não dissesse a mesma coisa.
Acontece que certa feita, ao nascer do sol, morreu uma orquídea. O dia, então, tratou de ficar cabisbaixo. As nuvens não trouxeram chuva. Maldosas e insolentes, apagaram a cor do meio-dia. E não se foram.
Quem fez isso com a bela orquídea, não se sabia. O bom juízo cochichava: “as flores não se matam”. E os dias, com suas noites, passaram. Foi aí que o roedor fez seu caminho até o chiqueiro, subiu no toco e tocou no assunto:
“Não tem uma alma viva nessa fazenda que preste! Querem assassinar a verdade, esconder o algoz da pobre orquídea.... O jabuti, coitado! Esse é devagar e só vai por onde é mandado. Foi investigar e arrastou o casco por onde não devia. Vai ver que apagou foi os rastros do bandido! O boi simental e o gavião? Estes se encontraram para controlar as investigações. Só pode! E tem a pata de um nelore aí que quer proteger o bezerro da irmã dele. Tá aqui! Olhem! Esse bezerro aqui da foto passou por baixo do arame farpado na calada da noite e pisoteou a pobre! O chocalho dele acusou que ele estava lá! Olhem as costas dele que devem tá um rebuliço, cheias de marcas...”

A confusão foi grande. As ovelhas ficaram histéricas. Entre berros e mais berros, chamavam o bezerro de tudo, menos de gente. E para a surpresa do mundo inteiro, e deleite do rato pernicioso, o bezerro apareceu. Mas tinha marcas na alma e somente. Angustiado e constrangido, mostrou que não havia deixado o curral e nem encostado na cerca.
Revelou, diante dos olhares que foram retomando a serenidade, que o rato pegou uma história de um bezerro de outro curral que tinha voltado para lá, que achavam estar fugindo, todo arranhado, e meteu seu nome no meio. De uma especulação, outra foi feita.
Rápido e sorrateiro, o rato rasgou a foto do bezerro para não dar um fora com as ovelhas, mas continuou insinuando lá e cá, de toco em toco, no meio de outros bichos e na falta de emoção maior na sua vida de bueiros, as teses mais absurdas.
A pobre flor que se foi, coitada, teve fotos suas, de pétalas destroçadas, mostradas pelo rato. Só que o rato é sagaz. Ouvindo o berro incomodado de algumas ovelhas, rasgou também as fotos mais chocantes da orquídea. E torceu para que ficasse tudo no passado.
Passou o tempo e as ovelhas já não aguentavam mais a falta de solução para o acontecido. Acharam mais alguns suspeitos e mais algumas histórias e o rato ria.
A maioria das ovelhas não via motivo para que o rato mentisse. Realmente não dá para entender. Fato é que ele fez o que fez e torce para que ninguém lembre. Afinal, o que esperar de um bicho desses a não ser o que um bicho desses faz?

Espera-se justiça. Ela tarda, mas não falha. Virá com a voz da tartaruga casca grossa, que não fala sem provas exaustivas. E quando as nuvens se forem e os interesses desumanos virem à tona, não haverá mais dúvidas. O rato vai pagar pelo que fez na lei da fazenda e terá a sua mentira exposta para todos e para todos os tempos.
Resta saber o que farão as ovelhas roucas que caíram nessa conversa pra boi dormir. Vão fingir que não se precipitaram? Vão se desculpar, afinal, ou já estarão berrando aos montes em cima de outro inocente e de outra ocasião?
Em 29/09/11, 15:26









