topo
BOCAINA

Considerações,
Sempre foi motivo de curiosidade para mim a história da colonização de Bocaina. Quem foi Borges Marinho? Por que veio de Portugal para cá?O que o motivou a vir para as terras da Bocaina? Essas indagações e muitas outras se fazem presentes em meus pensamentos, desde os tempos de criança. Lembro-me dos idos de 70, quando meu cunhado Jose Rodrigues levava para a Malhada (comunidade rural da Bocaina) os escritos do senhor Luiz José da Luz. Várias páginas de papel manuscritas sobre a Bocaina. Para a criança recém-alfabetizada, queria era brincar, aquela leitura tornaa-se um fardo. Mas as curiosidades vêm daquele tempo, e o texto acabava por ser também uma gostosa fonte de respostas às indagações...

A COLONIZAÇÃO NO NORDESTE E NO PIAUÍ
O livro ‘ De Moura aos Moura Fé ’ (Teresina, 2005) da autora Iracilde Maria de Moura Fé traça um registro da colonização nordestina e piauiense no qual encontramos suporte para a identificação de dados e fatos pertinentes a este processo. A autora garante que seja pouco provável que existam documentos eclesiásticos específicos da população de Bocaina, onde se iniciou a instalação das fazendas de gado da região de Picos, pois todos os registros de nascimentos e casamentos, foram feitos durante desobrigas realizadas na freguesia de Nossa Senhora da Victoria, a qual pertenciam essas povoações.

Durante todo o século XVI e primeira metade do século XVII, a ocupação das novas terras brasileiras se dava apenas na faixa litorânea, sendo que o espaço que formaria o estado do Piauí estava povoado de índios e se constituía numa área de passagem das expedições que se deslocavam entre a Bahia, Pernambuco e o Maranhão. Esses deslocamentos se faziam principalmente pelo litoral e pelo boqueirão da Serra da Ibiapaba, em caravanas formadas ora por jesuítas, ora por outros viajantes que tinham como principal objetivo encontrar minérios e caçar índios, para escravizá-los ou vende- los na região dos engenhos.

Mais tarde, com a redução dos lucros do açúcar e a intensificação da busca de minérios preciosos, o processo de colonização passou a se estender também pelo interior da região Nordeste – espaço do “ sertão de dentro ” ou “ sertão dos rodelas ” (como eram chamadas algumas tribos de índios tapuias). A conquista dessas terras era organizada por grupos de particulares e estimulada pela Coroa Portuguesa, ora liderados por grupos familiares, ora por “ mestres de campo ” chamados de bandeirantes, contratados com o fim específico de caça ao índio e procura de minerais preciosos, tendo como recompensa principalmente patentes militares e muitas terras, conforme identificam vários estudiosos.
 
E assim, por onde passavam, esses desbravadores/colonizadores instalavam suas fazendas de gado, utilizando um sistema extensivo de criação, deixando nelas apenas os vaqueiros, poucos empregados e escravos. Nesse tipo de ocupação, as primeiras sesmarias eram requisitadas/doadas após o desbravamento e ocupação das terras, e como não eram cercadas, o alcance das terras dos sesmeiros passava a se fazer pela área que o gado alcançava. Este era ferrado e solto, sem nenhum cuidado adicional, tornando-se mais um símbolo da posse da terra e do poder do que propriamente uma atividade econômica, diferentemente de outros sistemas de criação implantados em outras regiões brasileiras.
 
As notícias dessa nova área desbravada foram se espalhando como “ terras ricas em água e pasto nativos sempre verdes ” , atraindo novos povoadores. Estes foram formados tanto por famílias abastadas que traziam gado e escravos e aqui instalavam suas fazendas, como também por pessoas “ sem terras ” que procuravam trabalho. Estes últimos se fixaram no Piauí como agregados, sitiantes e rendeiros, se dedicando principalmente à agricultura de subsistência, nas áreas não ocupadas com o gado e nas “ sobras de terras ” entre as sesmarias.
 
O Piauí não tinha administração autônoma e, apesar de ter se tornado uma Capitania em 1712, a sua instalação só ocorreu em 1718 e o seu primeiro Governador, João Pereira Caldas, somente veio assumir o seu cargo 40 anos depois, em 1758. Um dos primeiros atos desse governador foi a expulsão dos Jesuítas do território piauiense, por ordem do Marquês de Pombal, então Ministro Real. E como se verá adiante, o criador da Bocaina rebelando-se a esta medida, esconde em suas terras o padre que celebrou a primeira missa naquele local – um jesuíta.
Nesse contexto é que a sociedade piauiense começou a se formar a partir do final do século XVII, tendo como atividade predominante a pecuária extensiva, apoiada na agricultura de subsistência, que dava autonomia produtiva às fazendas. Essa forma de auto-abastecimento, associada à dificuldade de transportes, não favorecia o surgimento de um comércio mais intenso, nem o crescimento das Vilas. Dessa forma, as fazendas permaneceram quase isoladas por cerca de um século, o que explica que a população tenha permanecido com características tipicamente rurais por quase dois séculos. Nesses primeiros séculos, os rebanhos cresciam e o Piauí exportava gado para os estados do Norte e Nordeste, as Minas Gerais e as Guianas. No entanto, a falta de investimentos na melhoria da qualidade do gado e na infra-estrutura das fazendas e das estradas, contribuía para que o gado perdesse valor de venda, pois era tocado a pés pelos longos caminhos empoeirados no período sem chuvas e cheios de atoleiros no período chuvoso, já chegando magro ao seu destino.

Esses fatores, aliados ainda à presença de levas de retirantes que chegavam ao Piauí vindo de outros Estados atingidos pelas grandes secas periódicas, foi castigando duramente essa atividade, que não era complementada por um sistema agrícola eficiente capaz de dar suporte ao rápido aumento populacional (principalmente na década de 1870), e, ainda somado ao fato de que o repovoamento dos rebanhos dessas áreas castigadas pelas secas era feito pelo gado do Piauí, reduzindo drasticamente o plantel piauiense. Tudo isso foi fazendo declinar cada vez mais a economia piauiense que, no seu bojo, vinha reduzindo significamente o papel do rebanho bovino.

O SURGIMENTO DA BOCAINA E DOS FESTEJOS DE NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO
Em 1749, o português, Antonio Borges Marinho Leal, acompanhado de sua mulher, seus dois irmãos, Francisco Borges Marinho e Albino Borges Marinho, e um grupo de escravos, viajando por muitas estradas, por margens de rios e riachos, encontraram um local que acharam adequado e se instalaram, por existir um rio, Guaribas, nascente entre duas serras, onde colocaram o nome de Boqueirão em seguida Bocaina.

Depois de instalar a mulher e os escravos, Borges Marinho, viajou com seus dois irmãos em busca de terras para ambos. Primeiro, conseguiu um local para Francisco Borges Marinho, nas extremidades do Piauí com Ceará, onde instalou o irmão e nomeou o local de Inhamuns. Logo após, continuou a viagem com seu outro irmão, Albino Borges Marinho. Em Buriti dos Lopes achou que era o local certo e o instalou naquela região.

Antônio Borges Marinho retornou ao local escolhido e logo providenciou sua casa e uma igreja, com material de construção vindo de Oeiras. O templo religioso foi concluído em 1754. Então ele viajou em busca de um padre, para celebrar a primeira festa daquela região e trouxe da Bahia um jesuíta.

O padre João Sampaio realizou novenas do dia 29 de Novembro a 07 de Dezembro, no dia seguinte fez a celebração principal – a missa de Nossa Senhora da Conceição. Batizou a igreja e as imagens de Nossa Senhora da Conceição e Nossa Senhora do Rosário, que Borges Marinho trouxera para que seus escravos também celebrassem sua fé. Diz a tradição oral de Bocaina que após a missa de 08 de dezembro de 1754, Borges Marinho conduziu a imagem de Nossa Senhora da Conceição até o altar da igreja, entregando a de Nossa Senhora do Rosário para um de seus escravos também conduzi-la até o altar.
Para Borges Marinho foi um sonho concretizado, ficando assim, os festejos religiosos, sendo comemorados de 29 de novembro, a 08 de dezembro em louvor a Nossa Senhora da Conceição e dia 09 de dezembro a missa para Nossa Senhora dos Rosário, com festa para os escravos, onde o determinante era a dança do congo – manifestação cultural trazida da África pelos negros.

Por conta das divergências entre a Coroa Portuguesa e a Companhia de Jesus, chegando ao ponto dos jesuítas terem decretada sua expulsão do Brasil, Borges Marinho escondeu o padre João Sampaio em suas terras. Algum tempo depois, já idoso e muito doente o religioso faleceu e foi enterrado dentro da igreja.

A descendência de Borges Marinho foi possibilitada através de seu filho único, Raimundo de Sousa Brito, nascido em 1755. O irmão de Borges Marinho fazendo uma visita a suas terras trouxe com ele uma filha, Narcisa, a qual casou-se com Raimundo Brito. O casal teve quatorze filhos sendo dez homens e quatro mulheres.

Envelhecido, Borges Marinho teve problemas de saúde, foi levado para Oeiras em busca de tratamento, mas lá mesmo faleceu. O corpo foi trazido para a Bocaina, só que era inverno nessa época o que impediu a travessia do rio Itaim, e determinou o sepultamento para aquele mesmo local. Depois do baixar das águas, Raimundo Brito e seus escravos retornaram ao local, retiraram os restos mortais de Borges Marinho, colocando em uma mala de couro de gado, trazendo para Bocaina e sepultando na Igreja.

Com o passar dos anos os filhos de Raimundo Brito cresceram e foram constituindo famílias, por toda Bocaina e locais próximos da região. Raimundo possuía muitos amigos que pediam a ele permissão para construir casas em sua propriedade próximo a igreja, para passar o período dos festejos, como João Gomes Caminha Rocha e Simão da Rocha. Homens que acabaram também escolhendo a localidade de Bocaina para viver, formando famílias e colaborando para a constituição daquele povoado que mais tarde tornou-se cidade. Raimundo Brito, ainda teve uma segunda esposa, após tornar-se viúvo.

Muito doente, já prevendo sua morte entregou para seu filho Manuel de Sousa Brito, a procuração da Igreja e em 1840 faleceu. É necessário ressaltar que nesta ocasião a igreja de Bocaina era de propriedade da família Borges Marinho. Só anos mais tarde é que a capela passa a incorporar a estrutura oficial da Igreja Católica. Convencionou-se, entre os moradores daquele tempo a “ procuração ” da igreja. Quem a tivesse era a pessoa que respondia pela administração da capela. Antes de falecer, Manuel de Sousa Brito, entregou a procuração da Igreja ao seu sobrinho Antônio Borges Leal. Em 1895, Antônio Borges Leal reformou o teto e outras partes desgastadas da igreja e construiu um cemitério como propriedade da mesma, proibindo de se enterrar na igreja pessoas da família como vinha sendo praxe.

Em 1901, perto da sua morte, Antônio Borges entrega a procuração da igreja para seu irmão Vicente Leal. Neste mesmo ano ainda foi sepultado na igreja o padre Manuel Florêncio da Canabrava, que freqüentava e celebrava aos domingos missa na Bocaina. Vicente Leal em 1925 passa o comando da igreja a Benvindo Francisco da Luz, que construiu a sacristia e um coro. Cícero Gomes Vieira recebe a procuração da Igreja de Benvindo Francisco da Cruz e reforma o altar de Nossa Senhora da Conceição. Logo depois entrega a administração para Francisco José de Sousa Leal que construiu uma torre de 22 metros na frente da igreja em 1951.

Em 09 de Dezembro de 1922, depois que terminaram os festejos, alguns homens que representavam aquela região, fizeram uma reunião com o propósito da construção de um mercado que trouxesse movimento e comercio para Bocaina. No dia seguinte da reunião, contrataram Camilo Gastão Beleza de Araújo, para construção do mercado e no ano seguinte em 11 de fevereiro de 1923, realizaram a primeira feira, diante da igreja uns oitenta metros onde é hoje a praça que homenageia Borges Marinho.
Em 14 de novembro de 1963, Helvídio Nunes de Barros, apresentou projeto na câmara estadual do Piauí para desmembramento daquela região de Picos, para se tornar cidade, fato que aconteceu em 10 de Abril de 1964 com o governador do estado Petrônio Portela dando posse ao primeiro prefeito da cidade de Bocaina, Benvindo Luiz da Luz.

E foi assim, com os atrativos naturais chamando a atenção do colonizador português e tendo a igreja e a fé em Nossa Senhora da Conceição como âncoras que aquele boqueirão se tornou fazenda, povoado, e depois, cidade. Gerando milhares de vidas que por sua vez geraram ódios, amores e muitas estórias e histórias.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
O estudo efetivado nos permite tecer considerações reflexivas no processo de institucionalização dos festejos em Bocaina e culto religioso a Nossa Senhora da Conceição: a literatura pesquisada não inclui a celebração a Nossa Senhora da Conceição de Bocaina-PI dentre as pioneiras no Brasil, no entanto, constatamos fortes evidencias desta situação; os registros religiosos pesquisados apontam como decisivo foi a manifestação popular de fé em Nossa Senhora da Conceição para a proclamação do dogma, consequentemente a população de Bocaina contribuiu para tanto já que esta fé era manifestada 100 anos antes do ato de Pio IX e tal qual inúmeras outras cidades do Brasil, Bocaina carrega inúmeros heranças dos portugueses sendo que este estudo clareou mais o porque da fé daquele povo na Igreja Católica e particularmente em Nossa Senhora da Conceição.

Trechos da Publicação
Sousa, Oscar de Barros
Bocaina/PI e Nossa Senhora da Conceição: influência colonial portuguesa e defesa do dogma da Mãe de Deus/Teresina: Gráfica Rima, 2005 20 p.
Oscar de Barros Sousa


Site by Masávio